Argentina barra mais produtos brasileiros

Redução nas vendas de autopeças, calçados e móveis pode atingir 40%

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

A Secretaria de Indústria e Comércio da Argentina, em pleno centro de Buenos Aires, foi ontem o cenário de uma perda de terreno de diversos setores industriais brasileiros que tradicionalmente exportam para o mercado argentino. Respaldados pelo governo da presidente Cristina Kirchner, empresários argentinos dos setores de calçados e autopeças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul. Na véspera, as vítimas da política protecionista do governo Cristina foram as indústrias brasileiras de móveis de madeira. As limitações aplicadas aos produtos brasileiros em um mercado conquistado ao longo de anos oscilaram entre 20% e 40%, dependendo do setor. Por uma questão diplomática, o governo Cristina lhes aplica o eufemismo de "autorrestrições", as quais, indica, são "voluntárias".Em troca das reduções "voluntárias" das exportações brasileiras, o governo argentino somente dará em troca o "compromisso" verbal de uma liberação geral - e mais rápida - das licenças não automáticas aplicadas aos produtos. Os empresários brasileiros reclamam que, em muitos casos, as licenças provocam demoras superiores a 60 dias, chegando até a 150 dias.Dos 11 setores denominados de "sensíveis" em discussão nas últimas semanas, sete concluíram em acordos. "Nós estamos, claramente, mais uma vez, ajudando a indústria argentina", disse o presidente do Sindipeças, Paulo Butori. O desabafo referia-se ao acordo assinado, que implicará um teto dos envios de freios fabricados por empresas de autopeças brasileiras para o mercado argentino. O teto será 37% inferior aos envios realizados em 2008, equivalentes a US$ 15 milhões. "Bom, o que não tem jeito, não tem jeito...", desabafou Butori, que concluiu: "Um acordo é melhor do que enfrentar uma dificuldade maior".Daqui a dez dias será assinado o acordo que limita a venda de embreagens à Argentina. No caso desses produtos, a redução será de 40% das exportações brasileiras para a Argentina. Essa redução, no entanto, será aplicada aos 75 modelos brasileiros com equivalentes produzidos na Argentina. Os tipos de embreagens não fabricadas aqui não terão restrições.Os empresários brasileiros de calçados, representados pela Abicalçados, também assinaram ontem um acordo com seus pares argentinos. Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados, disse que o acordo provocará uma redução da cota que o Brasil poderá exportar para a Argentina. Dos 18,5 milhões de pares vendidos em 2008, passará para uma faixa de 15 milhões. Os representantes da Abicalçados conseguiram evitar uma perda maior, já que o empresariado argentino pretendia impor uma cota de apenas 12 milhões de pares.A redução de quase 20% estará vigente por dois anos e meio, até dezembro de 2011. "Dessa forma, pelo menos teremos uma previsibilidade de horizonte para os exportadores brasileiros e seus compradores na Argentina, pois poderão receber as mercadorias nos prazos combinados". Ontem existiam 3,4 milhões de pares que estavam pendentes da liberação, muitos dos quais há 150 dias em espera. O lado argentino nas negociações prometeu uma liberação "imediata e escalonada".Na quinta-feira, foi a vez do setor de móveis, que - para evitar maiores problemas em suas vendas para a Argentina - teve de resignar-se a reduzir em 35% (em comparação com as vendas de 2008) seus envios para o mercado local.Os empresários brasileiros reclamaram que, enquanto sofrem limitações, as vendas de móveis fabricados na China conseguem aumentar sua presença na Argentina. Segundo José Luiz Dias Fernandez, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Mobiliário (Abimóvel), os móveis brasileiros tinham no ano passado 57% do mercado dos importados na Argentina. Na mesma época, a China tinha 12,5%. Mas, neste ano, o peso do Brasil nas importações de móveis realizadas pela Argentina caiu para 24%. Simultaneamente, as vendas chinesas de móveis ao mercado argentino cresceram para 24%.Nas últimas semanas, outros setores assinaram acordos de restrição voluntária para suas exportações ao mercado argentino. Foi o caso dos empresários do setor de baterias, que em 2009 vão reduzir suas vendas em 32% em relação ao ano passado. O setor de celulose e papel foi o único que não perdeu terreno, pois conseguiu manter a cota de 50 mil toneladas anuais de papel de imprimir e escrever. Em 2008, a Argentina absorveu 23% dessas exportações brasileiras. O único setor que até agora registrou uma concessão argentina foi o do leite em pó. Foi uma reação às reclamações dos empresários brasileiros do setor, que argumentavam que o produto fabricado na Argentina tinha dumping, pois as vendas ao Brasil haviam disparado 285% no primeiro trimestre deste ano. Os argentinos concordaram em elevar o preço mínimo de US$ 1,78 mil para US$ 2,2 mil a tonelada, além de determinar uma cota de 3 mil toneladas mensais.COMÉRCIO BILATERALSegundo o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Ivan Ramalho, as exportações brasileiras para a Argentina recuaram 44,2% entre janeiro e maio. E as vendas argentinas ao mercado brasileiro caíram 25,8% no mesmo período. Ainda de acordo com Ramalho, a principal causa da queda das vendas de produtos brasileiros no país vizinho não são as medidas de restrição, mas sim os efeitos da crise internacional, que provocaram quedas no comércio em todo o mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.