Argentina cogita restringir 'avalanche' de produtos do Brasil

País vizinho quer medidas de salvaguardas por conta da desvalorização do real, informam fontes da Casa Rosada

Marina Guimarães, da Agência Estado,

10 Outubro 2008 | 15h33

Medidas de salvaguardas contra o Brasil já estão na mira da Argentina. O governo de Cristina Kirchner está decidido a proteger seu mercado de uma possível "avalanche" de produtos brasileiros com a desvalorização do real, confirmam fontes ligadas à Casa Rosada, ouvidas pela Agência Estado. Para isso, o país poderia colocar em uso, pela primeira vez, o Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), que prevê cotas de importação.  Veja também:NY discute suspensão de negócios por ação para evitar especulaçãoBolsas derretem no mundo todo; Bovespa cai mais de 7%Bush receberá ministros do G7 na Casa BrancaComo o mundo reage à crise Reino Unido congela ativos do banco islandês LandsbankiFMI age para garantir crédito a emergentesConfira as medidas já anunciadas pelo BC contra a criseEntenda a disparada do dólar e seus efeitosEspecialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  A presidente deixou sua decisão bem clara durante discurso na última quinta, por ocasião de um anúncio de investimentos no setor de gás. "Queremos um comércio administrado, que vai usar todos os instrumentos necessários que temos no Mercosul para manter o superávit comercial, chave para defender o trabalho dos argentinos, também os investimentos", disse Cristina.  Algumas horas mais tarde, a presidente convocou os secretários de Relações Internacionais da Chancelaria, embaixador Alfredo Chiaradía, e o secretário de Indústria, Fernando Franguío, na residência oficial de Olivos, para uma reunião. Antes, os funcionários já haviam se reunido com o chefe de Gabinete da Presidência, Sergio Massa, na Casa Rosada, sede do Executivo, segundo notícias dos jornais argentinos confirmadas por fontes oficiais à Agencia Estado.  Uma alta fonte do governo argentino explicou à AE que o assunto "está sendo tratado com ponderação porque o setor empresarial sempre chora, pede mais e age como se tudo fosse terrível". Segundo a fonte, "o governo argentino vai operar em defesa de seus interesses nacionais e de suas indústrias, parta que as medidas tenham o menor efeito daninho em relação aos sócios".  A iniciativa argentina se deve basicamente à diferença cambial entre os dois países. Enquanto no Brasil, a alta do dólar à vista (negociado em balcão) frente ao real acumula 29,97% em 2008, na Argentina, a moeda norte-americana subiu apenas 2,57% frente ao peso no mesmo período (cálculos feitos com cotações desta tarde). Assim, a grande preocupação da Argentina é que o real desvalorizado num mundo em recessão implica que os produtos brasileiros chegarão ao mercado vizinho custando menos e, portanto, em maiores volumes, já que a mercadoria que iria para outros países poderia ser desviada para o mercado argentino. Contra perda de competitividade Há três semanas a Agência Estado vem ouvindo alertas nesse sentido de analistas e empresários, mas nos dois últimos dias o assunto tem ganhado o destaque principal na agenda oficial e empresarial do país. O presidente da União Industrial Argentina (UIA), Juan Carlos Lascurain, levantou a voz para fazer as advertências sobre a perda de competitividade da indústria argentina e das reivindicações dos industriais: uma desvalorização do peso que acompanhe a do real e medidas protecionistas contra Brasil, China e Índia.  O governo argentino vai tentar convencer o brasileiro de que o Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), nesse momento, é fundamental para evitar que a Argentina sofra estragos mais profundos em sua economia e que o déficit comercial com o Brasil tenha um salto brutal dos atuais US$ 4 bilhões para uma cifra insustentável. Porém, antes de usar a MAC, que seria a colocação de cotas para aqueles produtos que estiverem provocando dano à indústria local, a Argentina vai pedir ao Brasil que tenha a iniciativa de limitar suas próprias vendas de produtos sensíveis, como têxteis, calçados, eletrodomésticos, metal mecânica, brinquedos e outros.  G-20 Os funcionários argentinos vão conversar com os brasileiros na reunião do G-20, em Washington, neste fim de semana. Os argentinos pediram para a próxima semana, uma reunião do Conselho Mercado Comum (CMC), do qual participam os ministros de Economia e chanceleres dos países do Mercosul (Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Chile e Bolívia) para coordenar ações conjuntas com o objetivo de enfrentar a crise financeira internacional. Neste encontro, o assunto seria aprofundando. Porém, segundo uma alta fonte da chancelaria argentina, o Brasil, como presidente pro-tempore do bloco regional, marcou a reunião, "a princípio", para o dia 27.  "Nesses tempos, com a deterioração ocorrendo a uma velocidade tremenda, 27 de outubro é tempo demais, é muito tarde", reclamou a fonte. Nos últimos três dias, continuou a fonte, "vimos um aprofundamento da crise financeira de uma dimensão impensada que está definitivamente provocando um impacto na economia real". A fonte afirmou à AE que o governo de Cristina não pretende tomar nenhuma medida unilateral e, por isso, esse processo "vai requerer consultas e um diálogo muito fluido, tratando de que tudo seja harmônico". Indagada se as medidas serão de consenso, a fonte insistiu na palavra "harmônico".  Comércio bilateral Na Argentina, a decisão não precisa passar pelo Congresso porque todas as medidas do Mercosul já estão avalizadas pela Constituição local. No Brasil, porém, a MAC só poderá ser acionada depois que for aprovada pelo Legislativo. No próximo dia 23 haverá uma reunião da comissão de monitoramento do comércio bilateral. A comissão que se reúne periodicamente tem a missão, entre outras, de detectar os setores que estão sendo ameaçados com a importação de um ou de outro país.  A Ásia, especialmente a China e a Índia, também estão na mira do governo, que pretende colocar todas as travas possíveis aos seus produtos. A questão é que qualquer barreira ao comércio não pode ser discriminatória, segundo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso significa que as barreiras contra a Ásia valeriam também para o Brasil e os demais países. Por isso, as medidas de proteção que a Argentina eventualmente adotar para se resguardar de uma "invasão chinesa", como dizem os empresários, terão que ser informadas e, dependendo do caso, discutidas com o Brasil, já que é seu principal sócio comercial. Caso contrário, isso poderia gerar ruído na relação entre os dois países, porque seriam medidas unilaterais.

Mais conteúdo sobre:
Argentinacrise nos EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.