Argentina começa a passar o pires

A Argentina começa, na próxima semana, uma peregrinação para conseguir o apoio político dos países que mais investem em seu território a uma ajuda financeira internacional.Na manhã da próxima terça-feira, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Ruckauf, desembarca nos Estados Unidos, levando uma carta de apelo do presidente argentino, Eduardo Duhalde, a seu par americano, George W. Bush.Ruckauf segue depois para a Itália e, por último, à Espanha - o país que mais pressiona a Argentina, em favor de seus lobbies empresariais, desde a desvalorização do peso.A missão de Ruckauf ganhou peso nesta semana, depois das mais recentes declarações das principais autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI), das reações de jornais americanos a medidas adotadas em Buenos Aires e também da constatação pelo próprio governo argentino da dificuldade em montar um programa econômico minimamente aceitável.Para a equipe econômica argentina, tornou-se clara a indisposição do FMI e dos mercados financeiros americanos em consentir uma ajuda ao país. Nesta semana, a sub-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger, afirmou que uma ajuda de US$ 15 bilhões seria uma ?cota muito alta? para a Argentina.Nesta quarta-feira, o Wall Street Journal, de Nova York, publicou duras críticas contra as iniciativas do governo argentino para eliminar gradualmente o ?curralzinho? e sua intenção de tributar as exportações de petróleo. O país foi tratado pelo jornal como ?república bananeira? e comparado ao Haiti.Indiferente às respostas de Buenos Aires, o diretor-gerente do Fundo, Horst Köhler, reiterou suas declarações de que a Argentina não poderia sair da crise sem sofrimento. ?O caminho para o crescimento não passa pelo populismo, mas é doloroso e deverá levar em conta as conseqüências sociais?, insistiu Kohler na entrevista publicada na edição desta quinta-feira do jornal espanhol El País.A equipe econômica argentina está ciente de que uma parte da resistência do Fundo ao programa que será apresentado pode ser reduzida com uma boa dose de apoio dos peso-pesados na estrutura do Fundo, como é o caso dos Estados Unidos e mesmo da Espanha e da Itália.Os três países, juntos, injetaram cerca de US$ 31 bilhões em investimentos diretos na Argentina nos últimos dois anos. Só em 2001, os Estados Unidos destinaram US$ 4,976 bilhões, 29,6% do total que a Argentina recebeu. A Espanha injetou US$ 3,436 bilhões, e a Itália, US$ 1,079 bilhão.Logo que desembarcar em Washington, Ruckauf se encontrará com o secretário de Estado, Colin Powell. Deixará com Powell a carta escrita por Duhalde, com um relato realista da situação de seu país, para ser entregue a Bush.No dia 30, Ruckauf desembarca em Roma, na Itália, onde se encontrará com o presidente, Carlo Azeglio Ciampi, e com o chanceler e presidente do conselho de ministros, Silvio Berlusconi. Também terá uma reunião como secretário de Estado do Vaticano, cardeal Angelo Sodano.No dia 1º, na Espanha, terá os encontros mais difíceis. Primeiro, com o rei Juan Carlos de Bourbon, que anteontem declarou a ?solidariedade incondicional? de seu país à Argentina.Em seguida, com o presidente do Conselho de Ministros, José María Aznar, que vem exercendo pressões sobre o governo argentino contrárias à pesificação da economia e, especialmente, das tarifas de companhias concessionárias de serviços públicos. Boa parte das empresas desse setor e dos bancos em operação na Argentina são de capital espanhol, como a Teléfonica de Argentina, a Endesa, a Gás Natural e o BBVA.

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