Argentina: comércio exterior se destacará em 2010

Apesar da expectativa, o crescimento não deverá repetir o recorde de 2008

Marina Guimarães, da Agência Estado,

21 de dezembro de 2009 | 13h13

A indústria, a agropecuária e os serviços vinculados ao comércio internacional são os setores que deverão crescer mais na Argentina em 2010, segundo prognósticos de analistas. Apesar da expectativa, o crescimento não deverá repetir o recorde de 2008, mas atenuar as perdas que esses segmentos tiveram com a crise financeira global deste ano. O economista da Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (Fiel), Abel Viglione, explica que, segundo sua projeção, "em 2009 houve uma queda muito forte do Produto Interno Bruto, acima de 4,6% e, portanto, a probabilidade de crescimento em 2010 é generalizada, especialmente, no setor de bens, que caiu muito mais que o de serviços", estima.

 

"A economia em geral poderia crescer 4,5%, se o clima permitir, mas não vai chegar aos níveis de atividade que tinha em 2008, quando houve recorde de produção", projeta. Pelo tom dos analistas, a parábola bíblica "os últimos serão os primeiros" parece refletir bem o desempenho da economia argentina. "Os piores setores em 2009, em geral, os ligados ao comércio internacional: agropecuária, automóveis, siderurgia e petroquímica são os que terão melhor crescimento no próximo ano", afirma a economista Marina Dal Poggetto, da consultoria Estúdio Bien.

 

O setor de construção, segundo ela, também entra na lista, já que "a sensação do dólar quieto incentiva a demanda". O turismo é outro setor que busca a revanche no próximo ano. Massacrado pela gripe A, a crise internacional e o atraso da chegada da neve, o turismo argentino caiu 19%, segundo a Fiel.

 

Um dos tratores que vai puxar essa recuperação é o Brasil, que compra 19% das exportações totais da Argentina e 39% das exportações industriais, de acordo com os cálculos de Viglione. "A valorização do real e o crescimento do PIB em dólares nesse país antecipam que haverá um demanda importante no vizinho, que será atendida pela Argentina", analisa.

 

Automóveis

 

Algumas projeções indicam um recorde de produção automobilística em 2010, da ordem de 700 unidades, cerca de 30% a mais que em 2009, como afirmou a ministra de Indústria e Turismo, Débora Giorgi, na semana passada. Mas a Adefa, a Anfavea argentina, prefere ser mais cautelosa e estima que a produção ficará igual aos níveis de 2008: 597 mil automóveis. "O comportamento desse setor está intimamente ligado ao mercado brasileiro", afirma estudo da consultoria Abeceb.

 

De cada 100 automóveis produzidos na Argentina, 51 são exportados para o Brasil, 41 ficam no mercado doméstico e 8 restantes são vendidos para outros países da região, conforme dados da Adefa. A entidade estima que no próximo ano, serão exportadas 400 mil unidades, 10% a mais que em 2009. Nesse ano que termina, o setor automotivo sofreu uma retração de 22,7% e teve que demitir dois mil empregados.

 

Construção 

 

Depois de um ano de poucos andaimes e um retrocesso de 2,4%, o setor de construção pode crescer entre 3% a 5%, segundo estimativas da câmara de fabricantes de insumos para o setor. "Não é um número ruim, já que estaríamos chegando ao mesmo nível de unidades vendidas em 2005 e 2006, mas, é claro, estaríamos 10% abaixo das cifras de 2007 e 2008, que foram as melhores", comenta Horácio Ortega, representante da câmara.

 

"As previsões para 2010 não são de crescimento forte, mas de uma recuperação moderada para a construção", ressalta a Abeceb. "Isto se deve à, entre outros fatores, redução das obras públicas previstas". As obras de grande porte não devem ainda entrar no cronograma dos construtores no próximo ano. Fonte do setor afirma que "há muitas dúvidas sobre o governo e o rumo da economia até o final do mandato (2011) de Cristina Kirchner, o que leva os grandes projetos para a gaveta à espera de um cenário mais previsível".

 

Agropecuária

 

A safra argentina de grãos deve atingir, em 2010, 81,5 milhões de toneladas, 37% a mais do que o esperado em 2009, mas ainda longe de 2008, quando marcou o recorde de 95 milhões de toneladas, conforme projeções da Abeceb. A crise internacional, o conflito entre o governo e os produtores e a forte estiagem foram um coquetel explosivo para o campo em 2009, especialmente para a soja que sofreu uma queda de 18% em seu volume. O economista chefe da Sociedade Rural, Ernesto Ambrosetti, diz, no entanto, que a soja vai continuar como o principal cultivo do país, chegando a uma produção de 50,3 milhões de toneladas.

 

A notícia é boa para a economia, porque "pode aumentar a demanda de maquinário, fertilizantes e agroquímicos", destaca Ambrosetti. A consultoria Ecolatina estima que as exportações dos principais cultivos argentinos chegarão a US$ 16,8 bilhões (US$ 5,4 bilhões a mais que em 2009), considerando preços internacionais mínimos.

 

Mas a consultoria pondera que o mais provável é que haja um aumento dos valores das commodities agrícolas e, nesse caso, as exportações chegariam a US$ 18,8 bilhões. Com as retenções (impostos de exportações) que o governo aplica sobre esses produtos, o Tesouro vai engordar as suas arcas em ambas as hipóteses. Na primeira, arrecadaria 20,7 bilhões de pesos (US$ 5,5 bilhões), na segunda, chegaria a 23,3 bilhões (US$ 6,1 bilhões).

 

Siderurgia e outros

 

As melhores previsões de recuperação da indústria e construção nos países desenvolvidos apontam para um aumento da demanda de metais básicos, como aço, e beneficia o setor na Argentina, segundo observação de Viglione. Ele afirma que a retração da siderurgia neste ano chegou a 22%, mas pode crescer 8% em 2010. A expectativa para o turismo também é positiva. A ausência dos brasileiros nas ruas de Buenos Aires e das pistas de esqui foi um golpe duro que o setor espera suavizar no próximo ano. A consultoria Ecolatina projeta expansão de 3%. Mas o presidente da Federação Empresarial de Hotelaria, Oscar Ghezzi, aposta a um crescimento de 4% do setor. "Está ocorrendo uma reativação e as expectativas são de em 2010 vamos caminhar para um recorde em 2011", afirmou à imprensa. As estatísticas oficiais dizem que os turistas estrangeiros somaram 1,6 milhão durante o ano, o que representa uma baixa de 17,3%.

 

Os petroquímicos e plásticos, por sua vez, terão um crescimento mínimo de 5%, conforme projeção da Abeceb. "A produção de plásticos pode ter um desenvolvimento muito bom por causa do incremento da demanda local e internacional", afirma Viglione, da Fiel.

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