Juan Mabromata/AFP
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De olho em eleição, Macri congela preços

Pacote tenta conter inflação, que chegou a 54,7% em 12 meses, e aumentar consumo; cesta básica não terá aumento até cinco dias antes do pleito

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 12h09
Atualizado 17 de abril de 2019 | 22h27

Em uma tentativa de chegar melhor posicionado às eleições de outubro, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, anunciou nesta quarta-feira, 17, um pacote econômico que inclui medidas que eram adotadas por sua antecessora, Cristina Kirchner, e criticadas por sua própria equipe.

Macri fechou uma acordo com empresas para que os preços de 60 produtos da cesta básica não aumentem até 22 de outubro, cinco dias antes do pleito. O presidente também congelou as tarifas de energia, gás, transporte público e pedágios – as altas que estavam previstas serão absorvidos pelo governo, em um modelo parecido ao kirchnerista.

 O anúncio foi feito um dia depois de os dados da inflação de março serem divulgados. No mês, os preços no país subiram 4,7%, puxados por educação (17,9%), roupas e calçados (6,6%) e alimentos (6%). O número assustou o mercado, que esperava algo mais perto dos 4%, e fez com que a inflação nos últimos 12 meses chegasse a 54,7%.

Na tentativa de suavizar esse indicador, recargas de celulares pré-pagos não sofrerão alterações até setembro e o gás terá um desconto de 22% durante o inverno, além de 60 produtos serem incluídos no programa “Preços Cuidados” – criado na gestão Kirchner para segurar a inflação artificialmente e que nunca foi completamente abandonado por Macri. Hoje, 579 itens já fazem parte do programa e são vendidos com um desconto médio de 25%.

Além de tentar reduzir a inflação até as eleições, o presidente de centro-direita procura impulsionar o consumo, que caiu 8,7% em março. Para isso, foram adotadas medidas como descontos de 10% a 25% para 18 milhões de aposentados e pensionistas na compra de alimentos, roupas, viagens, eletrodomésticos e materiais de construção. Ainda serão concedidas linhas de crédito com juros mais baixos do que os do mercado para essas pessoas.

O modo como o anúncio do pacote foi feito causou estranhamento no país. Macri divulgou nas redes sociais um vídeo em que visita uma família que reclama das dificuldades econômicas. O presidente conta, então, o pacote preparado por seu governo. “São medidas que adotamos para gerar um alívio no curto prazo”, diz no vídeo. A ministra de Saúde e Desenvolvimento Social, Carolina Stanley, afirmou à imprensa argentina que a conversa com a família foi “espontânea” e que Macri “está do lado dos argentinos e entende o que eles passam”.

Para o ex-presidente do Banco Central argentino Martín Redrado, as políticas anunciadas na quarta-feira são “improvisadas” e refletem a falta de um plano econômico no governo Macri. “O pacote é um ‘band-aid’ que não resolve os problemas, uma ponte para tentar chegar às eleições com tranquilidade. Não há um programa econômico, mas medidas emergenciais que postergam a crise para depois de 10 de dezembro (data de posse do presidente que será eleito em outubro).”

O economista-chefe do BTG Pactual na Argentina, Andrés Borenstein, afirma, porém, que esse plano pode reativar o consumo no curto prazo. “Estão tentando melhorar o humor da sociedade, que não é dos melhores.” Apesar de acreditar que o gasto das famílias deve aumentar com as medidas, Borenstein não prevê um impacto suficiente para alterar sua projeção de PIB. O BTG estima uma queda de 0,5% na atividade econômica em 2019 e uma inflação entre 37% e 38%.

Política monetária

Na terça-feira, logo após divulgação da inflação oficial, o Banco Central também adotou novas medidas para segurar os preços. O BC impôs um teto para o peso até o fim do ano, já que a desvalorização contínua da moeda também tem pressionado a inflação.

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