Argentina deve antecipar fim do câmbio duplo

O governo argentino pretende antecipar o fim do regime de câmbio duplo e a flutuação da moeda nacional, como um sinal de que aceitará as condições impostas pelo FMI para receber pelo menos uma parcela do socorro pleiteado pelo país, entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. A flutuação poderá ser anunciada amanhã, durante a divulgação do novo plano econômico, e virar regra ainda em fevereiro. Essa definição, entretanto, ainda depende das negociações preliminares iniciadas hoje na capital argentina pela equipe econômica argentina com a missão do Fundo, liderada pelo diretor para o Hemisfério Ocidental, Claudio Loser. No domingo, o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, estará em Nova York para participar do World Economic Forum e há perspectivas de que se desloque a Washington para iniciar as conversas formais com o Fundo. O presidente do Banco Central argentino, Mário Blejer, não quis confirmar a informação extraoficial de que a flutuação do câmbio entraria em vigor em 15 dias. Em entrevista a agências internacionais, ele declarou que não há um calendário definido, mas admitiu que o prazo anteriormente previsto - até junho - é muito longo. Blejer acentuou ainda que o Banco Central trabalha para evitar oscilações bruscas no valor do peso no câmbio livre, e para diminuir a brecha entre a cotação oficial e a flutuante. As novas perspectivas para a política cambial foram decididas ao final da viagem do chanceler argentino, Carlos Ruckauf, aos Estados Unidos. Ontem, o governo americano garantiu seu apoio político à Argentina, caso desenhe um plano econômico sustentável. A notícia foi recebida com otimismo pela equipe econômica, mas reforçou a necessidade de antecipar um sinal concreto das mudanças planejadas antes da negociação formal entre a Argentina, o FMI, os demais organismos financeiros internacionais e os países mais ricos. A flutuação do câmbio foi uma das três claras recomendações do FMI. Hoje, enquanto um grupo de poupadores protestava diante do prédio do Ministério da Economia contra os depósitos congelados na rede bancária, o chamado curralzinho, Claudio Loser ingressou discretamente no edifício para uma reunião com a equipe de Remes Lenicov, com quem almoçou em seguida. À tarde, Loser, o economista que acompanha o caso argentino, Tomás Reichmann, e o responsável pelos países do Cone Sul, John Thorton, encontraram-se com o secretário de Finanças, Lisandro Barry, e com o presidente do Banco Central, Mário Blejer. A missão do Fundo chegou a Buenos Aires pela manhã, com a tarefa de repassar todo o plano econômico desenhado por Remes Lenicov e sua equipe, mas com a preocupação em três pontos. O primeiro, a possibilidade de a Argentina cumprir com as metas de ajuste fiscal que estarão implícitas no Orçamento para 2002. O outro, a sustentabilidade do sistema financeiro local, depois da pesificação de ativos e de passivos e da liberalização gradual dos depósitos. Por fim, os impactos da flutuação da moeda e os mecanismos disponíveis para amortecê-lo. Entretanto, a equipe econômica ainda não mostrava segurança quanto à fórmula da pesificação da economia - um processo que terá repercussão em todos os três pontos assinalados pelo Fundo. Não havia certeza, por exemplo, da taxa de câmbio que será usada para a conversão de depósitos e de créditos bancários, de dólares para pesos. O diretor do Banco Central, Aldo Pignanelli, assegurava que os ativos seriam convertidos de acordo com o câmbio oficial, de 1,40 peso por dólar - em contradição com declarações anteriores do vice-ministro de Economia, Jorge Todesca. A conversão dos passivos é ainda mais polêmica. A partir da tomada dessas decisões, o governo terá idéia do que vai ter de arcar para impedir a quebra do sistema bancário. O Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), de capital espanhol, anunciava a manutenção de seus investimentos de longo prazo no país apenas se o governo apresentar soluções realistas e estáveis. O presidente do Banco Central, por sua vez, confirmou que a reforma no setor bancário imaginada pela equipe econômica será profunda. Haverá mudanças estruturais, segundo ele, e algumas instituições irão embora do país; outras terão de se fundir. Blejer foi igualmente enfático ao garantir que a política monetária desenhada será extremamente cautelosa, para evitar o descontrole inflacionário. O novo programa econômico prevê que o Banco Central se valha de sua nova atribuição de emitir moeda. Segundo seu presidente, parte das emissões suprirá a demanda dos bancos por divisas. O restante cobrirá a queda da arrecadação de impostos, estimada em 12% neste ano, por conta da diminuição de 5% na atividade econômica. Leia o especial

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