Argentina enfrenta hoje duro teste popular

A flexibilização do "corralito" financeiro (congelamento de depósitos nos bancos) anunciada ontem à noite pelo governo argentino pode ter chegado tarde demais. O mal-estar é crescente e isso vem sendo sentido todos os dias com os protestos que, cada vez mais, proliferam por todo o país. A administração Duhalde, que teme a quebra do sistema financeiro e uma nova explosão social poderá passar por um duro teste hoje, praticamente um mês depois dos incidentes dos dias 19 e 20 de dezembro, quando morreram 30 pessoas.Vários setores da sociedade convocaram os argentinos para uma marcha pacífica nas primeiras horas desta tarde. Os manifestantes devem dirigir-se até a Praça de Maio, sede do governo e cenário onde ocorreram os maiores incidentes um mês atrás, culminando na renúncia do então presidente Fernando de la Rúa. Há um grande risco que grupos mais violentos, que no Interior do país têm atacado com pedras e paus bancos e lojas, se somem à marcha em Buenos Aires. Daí o temor de novos incidentes violentos na capital argentina. Nem a televisão e muito menos os jornais mencionaram coisa alguma sobre a marcha, embora tenha sido amplamente divulgado por vários setores de que será uma marcha pacífica.O comunicado divulgado ontem, no qual o governo assegura que 78% das contas correntes terão capacidade de utilizar fundos para "qualquer" transação, não convenceu muito. Hoje, logo cedo, argentinos entrevistados pela televisão mostraram repúdio à continuidade do "corralito", que, desde o dia 3 de dezembro, restringe os argetinos a retirar mais de 1,5 mil pesos (US$ 1,07 mil pela cotação oficial) de suas contas bancárias, aprofundando ainda mais a recessão que se arrasta há quatro anos.Bomba relógioAgora, as autoridades econômicas determinaram que os donos do dinheiro poderão optar "voluntariamente" pela transformaçãoo de até US$ 5 mil em pesos pela cotação de 1,4 por dólar, o que equivale a 7 mil pesos. Ocorre que o câmbio paralelo chegou ontem a 2,10 pesos por dolar, com a qual o correntista poderia receber, em situação normal, pelo menos 10 mil pesos. Isso provocou, já ontem à noite, um novo panelaço em frente à Residência de Olivos, residência oficial da presidência, onde a multidão definiu o "corralito" como "maldito" e insinuava que essa restriçãoo era uma bomba relógio de difícil desativação.A mensagem dos manifestantes foi clara: o governo tentou confortar os donos do dinheiro com alguma flexibilização, mas as medidas anunciadas não permitem fazer compras importantes que eles gostariam, provocando mais insatisfação. Isto é, a crise continua. Ernesto Schoo, um dos maiores intelectuales argentinos no momento, declarou ao jornal "La Nación" que esta crise é a pior e a mais grave vivida pela Argentina em toda sua história, já que, além da grave situação econômica, financeira e política, ela vem acompanhada de um repúdio exacerbado dos argentinos contra a classe política. Isso, de acodo com ele, pode servir para fazer "nascer um outro país"."Apenas uma mudança generalizada nas lideranças políticas poderá transformar este país carangejo, que hoje vive uma grande involução", disse Schoo, de 76 anos, escritor e crítico de teatro. Embora esteja entre os argentinos que tiveram seus depósitos congelados, ele acredita que a classe média, hoje cada vez mais empobrecida, ceda momentaneamente em suas reivindicações em favor do país e por cima dos interesses pessoais. "Só dessa forma poderá ser reforçada a governabilidade", acrescentou. Para ele, essa é a unica forma para conseguir a reconstrução política e institucional que a Argentina precisa.Leia o especial

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