Argentina espalha conflitos no bloco do Mercosul

O governo do presidente Néstor Kirchner voltou a pôr em cartaz o clássico enredo de manter conflitos comerciais em várias frentes. No momento, a Argentina está em estado de beligerância na Organização Mundial do Comércio (OMC) com o Brasil e o Chile, além de manter um intenso conflito diplomático-comercial com o Uruguai acerca da construção de uma megafábrica de celulose nas margens uruguaias do Rio Uruguai. De quebra, desponta um potencial foco de problemas com o Brasil no setor do comércio de suínos.Os analistas sustentam que em um ano eleitoral como este o acúmulo de conflitos com o exterior costuma proporcionar a Kirchner uma oportunidade adicional de mostrar sua musculatura política e fazer pose de presidente "forte".O economista Rosendo Fraga afirma que em 2007 Kirchner "assumirá um discurso nacionalista e populista, dada a tendência da opinião pública". No entanto, representantes do governo argentino desmentem qualquer tipo de utilização eleitoral e acusam a mídia de atiçar os ânimos em ambos os lados da fronteira. Segundo eles, o Mercosul vai de "vento em popa".Na semana passada tornou-se público que a Argentina havia entrado em dezembro com pedido na OMC contra as medidas antidumping brasileiras para a entrada de resinas de PET no País (as medidas causaram perdas de US$ 120 milhões nas exportações argentinas).Nesta semana, foi a vez de os produtores argentinos de suínos pedirem ao governo Kirchner que implemente um monitoramento da entrada de carne suína brasileira, que em 2006 representou 90% do total das importações argentinas desse produto.A Associação Argentina de Produtores de Suínos considera que a carne suína brasileira está entrando a preços de dumping. Essa briga, iniciada em 1997, é uma das mais antigas dentro do Mercosul. Desde a crise de 2001-2002, o setor desfrutou um boom exportador.Enquanto começa as brigas com o Brasil, Kirchner está em plena batalha com o Chile. Levou o governo da presidente Michelle Bachelet à OMC pela aplicação de sobretaxas para a entrada de produtos laticínios argentinos. O cenário complicou-se com a determinação de aumentar as salvaguardas para a entrada de farinha de trigo proveniente da Argentina, de 16,2% para 33%. As medidas chilenas foram interpretadas como represália pelas constantes reduções que o governo Kirchner determina para as exportações de gás para o Chile.Bloqueio argentinoAmanhã, pela primeira vez desde 1852, as vias terrestres e fluviais entre a Argentina e o Uruguai poderão ficar totalmente bloqueadas. Isso será concretizado se manifestantes conseguirem driblar as forças de segurança e realizar piquetes na entrada do porto de Buenos Aires (caso não consigam, anunciaram que jogarão ovos podres nos argentinos que embarcarem rumo às praias uruguaias). Poderão ser realizados também piquetes nas três pontes que ligam os dois países. Esta seria a primeira vez que todas as pontes seriam bloqueadas de forma simultânea.A intenção dos manifestantes é a de protestar contra a instalação de uma fábrica de celulose sobre o Rio Uruguai no município uruguaio de Fray Bentos, na fronteira argentina. Nos próximos dias o governo da província de Entre Ríos decidirá o boicote à venda de madeira à indústria de celulose do Uruguai. O chanceler uruguaio Reinaldo Gargano, sustenta que a "lei da madeira" viola o espírito de livre comércio do Mercosul. Segundo ele, essa medida poderia "liquidar" o bloco.O governo Kirchner não aceita os piquetes no porto de Buenos Aires. No entanto, tem sido permissivo com os piquetes realizados nas pontes na fronteira. O governo uruguaio acusa Kirchner de violar as regras do Mercosul de livre circulação de bens e pessoas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.