Argentina espera "gesto" do FMI para pagar dívida

O governo do presidente Néstor Kirchner passou o fim de semana à espera de um gesto concreto do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a aprovação da segunda revisão de metas do acordo e evitar seu segundo default com o organismo. O ministro Roberto Lavagna e sua equipe econômica estiveram reunidos no domingo para preparar uma carta que será enviada à diretora do FMI, Anne Krueger, contendo ponderações e respostas às perguntas e dúvidas que o organismo possui sobre a renegociação da dívida. Amanhã, a Argentina deve enfrentar um vencimento de U$S 3,1 bilhões junto ao FMI e, ao que tudo indica, o presidente Néstor Kirchner está disposto a não pagar se não receber um sinal positivo do FMI, como ocorreu em setembro do ano passado. Desde a última semana, a diplomacia argentina vem trabalhando intensamente junto ao G-7 para explicar a posição do governo e tentar evitar uma nova tensão entre a Argentina e o FMI. Em rápida conversa com a Agência Estado, no sábado, o ministro do Interior, Aníbal Fernández, um dos braços direitos do presidente, disse que o objetivo é negociar com o G-7 e mostrar que "não existem argumentos sólidos e técnicos para não aprovar as metas apresentadas pela Argentina". Ele explicou que o país "não pode usar dinheiro de suas reservas sem ter certeza de que esse será reembolsado porque isso representaria uma perda de 20% das reservas". O ministro justificou que a única razão para não aprovar as metas se deve às "pressões que o G-7 recebe dos credores da dívida" mas, segundo ele, esse não é o momento de pressionar e provocar uma nova queda financeira da Argentina, porque o "país está se levantando e quer negociar o pagamento" da dívida. A justificativa de Fernández deve-se ao argumento utilizado pelo G-7 para pressionar a Argentina de que "um país em default tem de oferecer uma negociação séria com uma proposta aceitável" . Dentre os sócios com maior poder de voto no FMI existe a idéia de que a Argentina não possui boa fé na negociação da dívida por causa de sua proposta de corte de 75% do valor da dívida, o que a torna amplamente rejeitada pelos credores. Os negociadores argentinos também se defendem dizendo que "todos os compromissos com o FMI estão sendo cumpridos e há um prazo até junho para apresentar maiores avanços na negociação". Portanto, o governo considera que semelhante pressão poderia até ocorrer, mas somente em junho, quando será realizada a terceira revisão de metas. Conseqüências Os economistas explicam que se a Argentina resolver não pagar os US$ 3,1 bilhões ao FMI, amanhã, haveria dois tipos de consequências: os mercados seriam fortemente afetados, imediatamente. Já a curto e médio prazos, o escasso crédito externo desapareceria , enquanto que o minguado crédito interno seria ainda mais restrito. Além disso, os economistas lembram que haveria sérios problemas na relação da Argentina com os Estados Unidos e os países europeus que ainda apoiam o país. Miguel Bein, ex-secretário de Programação Econômica, afirma que se houver default, os títulos públicos que já vem sofrendo a incerteza de uma situação pendente com o FMI, sofrerão quedas ainda maiores, de cerca de 10%. Ele também diz que a Bolsa sofrerá um impacto importante e esse sinal já foi dado na sexta-feira, com a mudança do cenário para a Argentina a partir da renúncia de Horst Köhler. "A diferença do default da Argentina de outubro de 2002 com o Banco Mundial e de setembro de 2003 com o FMI, é que hoje o mercado está mais vulnerável", explica Bein, completando que os preços estão bastante altos. "É muito difícil afetar um mercado com depósitos baixos, dólar em 3,5 pesos e os bonus a 50% da paridade, como era a situação de outubro de 2002", lembra o economista. A situação atual é diferente, continua, porque os depósitos estão em mais de 30 bilhões de pesos, o dólar vale 20% a menos e a paridade dos bonus está entre 65 a 70%. Miguel Bein acredita que "embora incipiente, o mercado doméstico de capitais está funcionando, e pensar que um default com o FMI não o afetará é uma estupidez", conclui. Os economistas são unânimes em opinar que a Argentina deveria pagar o FMI mesmo que não haja garantias de reembolso e tenha que usar suas reservas. Segundo a opinião do ex-responsável do caso argentino no FMI, Claudio Loser, "além de sérios problemas com o FMI, este tipo de decisão pode gerar animosidades internacionais". No mesmo sentido opina o consultor Manuel Solanet, da Infupa, as conseqüências de entrar em default "seriam gravíssimas porque os organismos já não podem desembolsar mais créditos e o risco-país subiria ainda mais". Ele diz que a medio prazo, o pior dessa situação é que qualquer decisão de investimento seria cancelada e o pouco crédito que existe, deixaria de existir. Solanet pondera, no entanto, que utilizar as reservas para o pagamento também é negativo. Oposição forte Nas últimas horas, a diplomacia argentina não tem recebido boas notícias para o país, conforme revelou uma fonte do Palácio San Martin, sede do ministério de Relações Exteriores. Segundo as informações recebidas pelos embaixadores que estão atuando na operação de convencimento dos países do G-7 para que continuem apoiando a Argentina, os Estados Unidos, a Alemanha e a França poderiam abster-se na votação, unindo-se à Inglaterra, Japão e Itália, tornando assim a posição em relação à Argentina bastante negativa. A missão dos "operadores" do governo continuará hoje, de acordo com as fontes diplomáticas, até o último momento, e contará com a ajuda de uma notícia positiva: o governo deverá assinar nas próximas horas o decreto que nomeia os bancos internacionais (Merryl Lynch, UBS e Barclays) que vão trabalhar na reestruturação da dívida. Porém, o FMI quer também que a equipe econômica reconheça a legitimidade do Comité Global de Credores para negociar, algo que o ministro Roberto Lavagna se nega. Plano B Embora o presidente Néstor Kirchner tenha dado ordens ao presidente do Banco Central, Alfonso Prat Gay, de não enviar nenhum dinheiro ao FMI enquanto não houver a certeza de aprovação das metas, o governo tem um "plano B" para evitar o default, segundo chegou a admitir o chefe de Gabinete da Presidência, Alberto Fernández. No entanto, ele não revelou detalhes do suposto plano. A Argentina deve ao FMI mais de US$ 13 bilhões de dólares, enquanto que com o Banco Mundial (Bird), a dívida é de US$ 9 bilhões, e de US$ 8 bilhões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A possibilidade concreta de que haja um novo default da Argentina com o FMI levou o Banco Mundial a congelar, há 15 dias, o tratamento do programa de créditos de quatro anos para o país no valor de US$ 5 bilhões, dos quais US$ 500 milhões seriam de desembolso imediato.

Agencia Estado,

08 Março 2004 | 07h31

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