EFE/David Fernandez
EFE/David Fernandez

Em dificuldade, Argentina recorre ao FMI para conter disparada do dólar

Mesmo com as medidas adotadas na semana passada, como elevar a taxa de juros para 40% ao ano, peso argentino continuou perdendo valor, o que levou o presidente Macri a recorrer ao Fundo, com um pedido de ajuda estimado em US$ 30 bilhões

Luciana Dyinewicz e Victor Rezende, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 13h49

Uma taxa de juros em 40%, US$ 7,3 bilhões gastos das reservas internacionais e um anúncio de redução do déficit fiscal de 3,2% para 2,7% do PIB não foram suficientes para a Argentina frear a desvalorização de sua moeda. Diante da turbulência financeira em que seu país entrou há menos de duas semanas, o presidente Mauricio Macri anunciou nesta terça-feira, 08, o pedido de um empréstimo ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

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 O valor do que o governo chamou de “financiamento preventivo” não foi revelado, mas, segundo a imprensa local, ficaria ao redor de US$ 30 bilhões – pouco mais de 50% do total das reservas atuais do país. 

No discurso em que anunciou a decisão de recorrer ao FMI, Macri responsabilizou o governo de sua antecessora, Cristina Kirchner, pela crise atual e defendeu sua política econômica gradualista – que, segundo ele, busca “equilibrar o desastre que nos deixaram nas contas públicas, cuidando dos setores vulneráveis e ao mesmo tempo garantindo o desenvolvimento”. Ele lembrou, contudo, que essa política “depende muito do financiamento externo”.

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O presidente acrescentou que, nos dois primeiros anos de seu governo, o contexto mundial foi muito favorável, mas que esse panorama mudou. “As condições mundiais estão cada dia mais complexas”, comentou, citando a alta dos juros em vários países e o avanço do petróleo e de outras moedas. 

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, confirmou que as conversas com o país já começaram. “Foram iniciadas discussões sobre como podemos trabalhar juntos para fortalecer a economia argentina.”

O anúncio de pedido de ajuda repercutiu bem no mercado financeiro, apesar de ter sido criticado por alguns economistas do país (veja mais na pág. B3). O dólar, que no início da manhã desta terça-feira, 08, chegou a ser cotado a 23,15 pesos, em sua máxima histórica, recuou para 22,35 pesos – alta de 0,005% no dia. No mês, a moeda norte-americana já avançou 9% e, no ano, 44,6%.

Em relatório, o economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, afirmou que a medida de Macri é um “desenvolvimento positivo, na medida em que aumenta o poder de fogo de intervenção do banco central e, por meio dele, a capacidade de ancorar a moeda”.

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O economista Andrés Borenstein, do BTG na Argentina, destacou que a necessidade de financiamento da Argentina não é “urgente”. “O urgente era parar essa sensação de pânico no mercado”, disse. “O governo Macri respondeu de forma correta. Depois, será preciso ver as implicações políticas dessa decisão.” Para Borenstein, um outro modo de resolver a crise em que mergulhou o país nos últimos dias seria via um ajuste fiscal “muito forte”. 

Borenstein frisou que a situação atual não pode ser comparada com a do governo de Fernando de la Rúa, que, em 2000, também pediu ao FMI um empréstimo considerado “preventivo”. “Naquela época, a Argentina estava em seu quarto ano de recessão e os fundamentos da economia eram muito piores”, disse.

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Origem. A Argentina é o país que vem sendo mais afetado pela valorização do dólar no mercado internacional, com as perspectivas de um aumento maior dos juros nos Estados Unidos – o que torna o mercado americano mais atraente aos investidores e afeta diretamente as economias emergentes.

Além do cenário externo desfavorável, a perda de credibilidade do Banco Central, a criação de um imposto sobre ganhos financeiros de investidores estrangeiros e a avaliação de que os déficits das contas públicas e externo continuam altos ajudaram a desencadear a crise no País. Apesar de ter feito ajustes na economia considerados importantes pelo mercado, como a redução dos subsídios a serviços básicos como energia e transporte, Macri não conseguiu driblar a inflação, que deverá ser superior a 20% neste ano.

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