Juan Ignacio Roncoroni/EFE
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Argentina deixa de pagar a credores no prazo e tenta renegociar dívida com FMI

Governo de Mauricio Macri anunciou que a maior parte da dívida de curto prazo do país detida por bancos, seguradoras e fundos não será paga no vencimento; o débito ficará para o próximo presidente, que será eleito em 27 de outubro

Luciana Dyniewicz, Renée Pereira e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 19h34
Atualizado 29 de agosto de 2019 | 00h32

O governo da Argentina anunciou nesta quarta-feira, 28, que vai deixar de pagar no vencimento a maior parte da dívida de curto prazo detida por investidores institucionais, como bancos, seguradoras e fundos. O débito vai ficar para o próximo presidente, que será eleito em 27 de outubro.

Se o resultado das eleições primárias, ocorridas em 11 de agosto, se repetir daqui a dois meses, a chapa de oposição ao atual governo de Mauricio Macri, composta por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, será a responsável pelo pagamento. De acordo com a imprensa argentina, a dívida de curto prazo do país está na casa dos US$ 15,5 bilhões – as reservas internacionais somam US$ 57 bilhões.

A capacidade de pagamento do governo Macri foi drasticamente reduzida após a vitória de Fernández, mais avesso ao mercado financeiro. Segundo dados do governo, antes das primárias, 88% dos detentores da dívida de curto prazo renovavam seus papéis quando eles venciam. No dia 15 de agosto, esse porcentual caiu para 7% e ontem foi de 5%, obrigando o governo a pagar a maior parte da dívida.

Em uma coletiva de imprensa, o novo ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, anunciou que, da dívida de curto prazo, apenas as pessoas físicas donas de papéis do governo receberão na data correta. No caso dos investidores institucionais, 15% dos débitos serão quitados no prazo do vencimento, 25% daqui a três meses e 60% em seis meses. Lacunza informou ainda que está renegociando a dívida de US$ 56 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e que os débitos de longo prazo também deverão ser renegociados.

Questionado pelo Estado se a medida se tratava de um novo calote, um membro do governo Macri afirmou, sob condição de anonimato, ser um “reperfilamento dos vencimentos, sem desconto no valor devido nem nos juros”.

Especialista em economia internacional, o economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), disse que o debate em torno do calote é uma “questão semântica”. “O que ela (Argentina) disse de forma explícita é que as datas pactuadas não serão cumpridas porque não consegue pagar e está propondo estender os prazos.”

No mercado financeiro brasileiro, a preocupação é alta com a probabilidade de o país quebrar no próximo ano, independentemente de quem seja eleito, disse uma fonte do mercado. Por enquanto, o principal efeito deverá ser no câmbio, de acordo com o economista Fabio Giambiagi. “Não vejo um impacto maior por aqui. Vivemos situação diferente.”

Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, esses “primeiros sinais de calote” da Argentina terão contágio em todos os países emergentes, sobretudo nesse momento de forte aversão ao risco no mercado internacional.

Além do impacto financeiro, a renegociação da dívida da Argentina traz reflexos preocupantes para a indústria brasileira, na avaliação de Livio Ribeiro. No médio prazo, a cadeia de valor entre Brasil e Argentina deve ser desorganizar, afirma. “A demanda final do país vizinho por bens produzidos aqui vai colapsar.” Do total das exportações brasileiras, 5% são destinadas à Argentina. No setor industrial, esse número chega a 20%.

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