Argentina libera compras online no exterior

Controle do kirchnerismo para impedir fuga de dólares é revogado e novo sistema vigorará em 30 dias; empresas locais pedem proteção

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2016 | 05h00

Um símbolo de como o isolamento econômico kirchnerista afetou o cotidiano dos argentinos começou a cair nesta quarta-feira, 27, com a retomada das compras online de produtos estrangeiros para recebimento em casa. Uma medida publicada no ‘Diário Oficial’ estipula que em 30 dias cairão as travas que, numa tentativa de frear a saída de dólares do país, inviabilizaram esse tipo de comércio eletrônico.

Quem pretende, por exemplo, comprar um livro num site americano enfrenta hoje uma burocracia semelhante à de uma empresa importadora. Na parte mais simples do processo, imprime um formulário no site do Fisco e paga uma taxa de 50% sobre o excedente de qualquer aquisição superior a US$ 25. Na parte mais complexa, deve ir com toda a papelada até a unidade do correio estatal ligada à alfândega e retirar pessoalmente o artigo. Há relatos de espera de cinco horas em várias filas, o que faz com que muitos desistam ou prefiram encomendar o que precisam a amigos ou parentes que viajam aos EUA ou à Europa.

Com o novo sistema, só será preciso retirar pessoalmente a encomenda no correio se ela valer mais de US$ 200 ou pesar mais de 2 quilos. Não era permitida também a entrega de mercadoria por serviços de envio privados. Eles poderão ser usados agora, com um limite de cinco remessas por ano, que não superem cada uma o valor de US$ 1.000 ou 50 quilos.

“É aplicar o que ocorre em todo o mundo, comprar algo e receber em casa. Mas também é uma forma de atacar oligopólios em certos setores, estimular a concorrência”, disse ao Estado o economista Marcelo Elizondo, da consultoria DNI.

Controle. As compras no exterior pela internet foram alvo de Cristina Kirchner em janeiro de 2014, três anos depois de ela estipular um controle cambial para manter as reservas do Banco Central em níveis mínimos e evitar uma disparada da moeda americana. Uma das primeiras medidas de Macri foi acabar com esse controle, o que levou a uma desvalorização de 30% do peso. O governo conseguiu controlar o dólar, mas não a inflação. O índice de preços acumulado nos últimos 12 meses supera os 40%.

“Em um ambiente de inflação muito alta, é uma boa medida liberar o comércio eletrônico. Há setores industriais acostumados a um protecionismo insustentável”, diz Elizondo, que já esteve na alfândega esperando horas por livros encomendados pela internet.

A indústria faz ressalvas à liberação por conta de prejuízos que alguns setores domésticos possam ter. “Para o consumidor, a possibilidade de comprar em massa um produto chinês pela internet, e que seja entregue em casa, é tocar o céu com as mãos. Sai entre 60% e 80% mais barato, mesmo pagando o imposto”, disse à agência Télam o presidente da Confederação Argentina da Média Empresa, Vicente Lorenzo. Os setores mais afetados devem ser os que tinham maior demanda quando as travas foram criadas: roupas, livros e eletrônicos, principalmente, telefonia celular.

Já o presidente da Câmara Argentina de Comércio Eletrônico, Gustavo Sambucetti, acredita que o sistema estimulará só compras em pequena quantidade no exterior e trará como compensação um hábito de negócios online que beneficiará a produção local.

Mas em alguns casos ainda continuará valendo a pena viajar ao exterior. Um iPhone 6S de 16 GB, comprado no site Amazon, por exemplo, cujo preço é US$ 687, com impostos e custo de envio tem preço final de US$ 1.169 na Argentina.

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