Argentina não negocia com parte de credores

Em sabatina no Congresso, Kicillof diz que 'negociação é para ser feita com todos'

ARIEL PALACIOS , O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h05

BUENOS AIRES - O governo da Argentina descartou ontem voltar a negociar com os fundos hedge detentores de bônus não pagos há mais de uma década, que levaram o país a um novo calote no mês passado.

Durante sabatina no Senado, o ministro da Economia Axel Kicillof afirmou que a Argentina deve entrar em negociação com todos os credores holdouts - denominação dada àqueles que não aceitaram os termos das renegociações da dívida argentina -, e não apenas com uma parte deles. "Temos de negociar com todos", reiterou Kicillof.

Os fundos NML e Aurelius conseguiram sentença favorável em uma corte de Nova York para que a Argentina os compense com US$ 1,3 bilhão mais juros, o que o país se nega a fazer. Kicillof afirmou que o NML e o Aurelius representam uma parte menor da dívida que o país ainda não conseguiu reestruturar após o calote de 2001.

Kicillof pediu ainda à oposição que vote no projeto de lei do governo Kirchner para trocar a jurisdição dos títulos argentinos pagos desde 2005 em Nova York. "Se o Congresso Nacional se abstiver nisso, é porque se transformou num tabelionato do juiz Thomas Griesa (encarregado do caso)."

As declarações de Kicillof foram feitas às vésperas de uma greve geral convocada para hoje pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) "rebelde"- que rachou com a presidente Cristina Kirchner há dois anos -, a CGT "Azul e Branca", além da ala dissidente da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), em protesto à política econômica do governo.

O chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, criticou as lideranças sindicais, afirmando que a greve tem "caráter político" e que os sindicatos são "financiados pelos fundos abutres", denominação dos fundos que integram os holdouts.

Reivindicações. Os sindicatos exigem altas salariais que compensem a escalada da inflação (que neste ano pode chegar a 40%, segundo economistas) e uma política concreta para combater a alta de preços. Os sindicatos também criticam a política de ajuste econômico implementada pelo ministro da Economia desde dezembro.

A greve promete paralisar o sistema de trens, os portos argentinos, além dos aeroportos. Os postos de gasolina permanecerão fechados, bem como bancos. Os caminhoneiros, segundo rumores, protagonizariam bloqueios em estradas e avenidas. O sistema escolar ficará parcialmente paralisado.

O secretário-geral da CGT "rebelde", o caminhoneiro Hugo Moyano, sustentou que Cristina é "permanentemente soberba". "O governo terá de começar a dar respostas às queixas dos sindicatos."

Grupos de esquerda e setores da CTA deram ontem uma amostra das paralisações e manifestações ao fazerem piquetes em vários acessos a Buenos Aires, além de marchas no centro portenho.

O vice-presidente da União Industrial Argentina, Juan Carlos Sacco, admitiu que as reclamações sindicais "são justas". No entanto, indicou que uma greve agora, em meio à recessão, seria "uma loucura".

O governo não descarta intervir com força policial. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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