Argentina não quer falar com credores

Reunião em Nova York termina sem que as duas partes conversassem diretamente; mediador diz que relutância é dos argentinos

Altamiro Silva Júnior, correspondente, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2014 | 21h28

A nova reunião entre a Argentina e os credores holdouts , fundos que não participaram das renegociações da dívida em 2005 e 2010, terminou nesta quinta-feira, 24, depois de três horas, sem acordo e sem nem sequer as duas partes se sentarem na mesma mesa. 

“Após falar com os dois lados, separadamente, propus e insisti em conversas face a face entre as duas partes. Os representantes dos fundos concordaram. Já os representantes da república Argentina se recusaram. As questões separando os dois lados permanecem sem solução neste momento”, afirma o advogado Daniel Pollack, nomeado pelo juiz Thomas Griesa para ser o mediador nas negociações em um comunicado distribuído após a reunião. 

“A Argentina deixou claro que vai escolher o calote no próximo dia 30”, afirmou um porta-voz do fundo NML Capital, que pertence ao bilionário Paul Singer, e é o maior credor do país. 

“A Argentina se recusou a negociar qualquer aspecto da disputa. Em vez disso, os representantes do país simplesmente ressaltaram que nenhuma solução é possível”, disse o porta-voz. “Esse resultado é infeliz e completamente desnecessário. Vamos continuar a buscar formas de estimular a Argentina a entrar em negociações, mas há uma total falta de disposição do país em resolver este problema.”

Uma nova reunião foi marcada para sexta-feira, 25, às 11 horas (de Brasília), em Nova York.

Otimismo. Pollack disse que tem a expectativa de que novas reuniões ocorram até o próximo dia 30, quando termina o prazo final para a Argentina pagar US$ 1,3 bilhão aos fundos credores, conforme determinado pela Suprema Corte dos Estados Unidos no dia 16 de junho. “O tempo para a Argentina evitar um calote é curto”, destaca o advogado no comunicado. Griesa, em uma audiência na quarta-feira, sugeriu que as duas partes se reunissem 24 horas para tentar buscar uma solução. 

A reunião desta quinta-feira foi a terceira a contar com representantes do governo argentino no escritório do advogado Pollack em Nova York. A comissão de negociadores da Argentina contou com representantes do Ministério da Economia, incluindo o secretário de Finanças, Pablo Lopez, e o secretário legal, Federico Thea. Também participaram advogados que representam a Casa Rosada, entre eles, Carmine Boccuzi. Eles saíram do prédio onde fica o escritório de Pollack na Park Avenue em dois carros e sem falar com a imprensa. 

Entre os representantes dos fundos credores, estava o advogado Edward Friedman, que tem como cliente o Aurelius Capital Management, o fundo que mais tem a receber do governo argentino, depois do NML Capital. 

Consequências. O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, afirmou em uma entrevista à imprensa ontem que haverá um “custo significativo” para a Argentina, caso entre em calote. Como consequência, o país deve ficar mais algum tempo fora dos mercados internacionais para captar recursos, disse ele. “Umas das implicações desse episódio é que há muito mais incerteza em torno de como conseguiremos reestruturar a dívida de outros países no futuro. Isso demonstra que temos de trabalhar no aperfeiçoamento de mecanismos de solução para países em dificuldades. Essa situação pode ser um gatilho”, disse Blanchard. 

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