Argentina perde relevância como cliente do Brasil, diz setor têxtil

Com a grave crise cambial, Buenos Aires passou a por entraves para as importações e o BC argentino tem atrasado sistematicamente as remessas de dólares para pagar exportadores

Renata Veríssimo, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2014 | 13h57

BRASÍLIA - "O Brasil e o empresariado brasileiro estão se dando conta de que a Argentina está perdendo importância como parceiro comercial", afirmou à Agência Estado o coordenador da Área Internacional da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Domingos Mosca, ao comentar as dificuldades dos exportadores brasileiros de vender seus produtos para o país vizinho. Com a grave crise cambial na Argentina, Buenos Aires passou a por entraves para as importações e o Banco Central argentino tem atrasado sistematicamente as remessas de dólares para pagamento dos exportadores de outros países. 

Conforme mostrou o Broadcast ontem, a Argentina suspendeu novamente o fluxo de pagamentos aos exportadores brasileiros e abriu um novo foco de tensão com o Brasil. Os atrasos levaram os empresários do setor automotivo, os mais prejudicados, a pressionar o governo a encontrar uma solução o mais rápido possível.

Mosca afirma que a Abit não teve reclamações novas nas últimas semanas, mas conta que a situação do comércio com o país vizinho é ruim desde que a Argentina começou a enfrentar problemas com as reservas internacionais. "A Argentina está perdendo relevância como cliente das exportações brasileiras", disse. Segundo ele, as vendas do setor têxtil e de confecções para o país vizinho tiveram queda. Passaram de 134 toneladas de janeiro a agosto de 2013 para 127 toneladas no mesmo período de 2014. Ainda assim, a Argentina continua sendo o principal mercado para os produtos têxteis e de confecção. Os Estados Unidos são o segundo destino e, embora tenham aumentado as compras do Brasil, ainda têm um volume muito menor. O Brasil exportou 85,4 toneladas nos oito primeiros meses deste ano, ante 63 toneladas de janeiro a agosto de 2013. 

O coordenador contou que há um esforço das empresas para diversificarem mercado, sobretudo para outros países da América do Sul com os quais o Brasil tem acordo de preferência tarifária, como Chile, Peru e Colômbia. Também há um movimento de tentativa de abertura de novos mercados na África.

Um relatório da Abeceb, uma das maiores empresas de consultoria na Argentina, divulgado na semana passada, mostra que o Brasil perdeu participação nas importações argentinas em todas as categorias, com exceção de veículos de passageiros. O Brasil reduziu a fatia de mercado para a China em bens de consumo e de capital. 

O presidente executivo da Abicalçados, Heitor Klein, disse que o Brasil perdeu espaço para os calçados chineses. Segundo ele, o País tem menos de 40% de participação no mercado de importados da Argentina, enquanto que a China garante 60% das compras argentinas. Klein disse que há um temor de que a Argentina passe a fazer uma triangulação, passando a exportar os calçados chineses para o Brasil. 

De janeiro a agosto deste ano, as receitas das exportações de calçados para a Argentina chegaram a US$ 56,8 milhões, 35% menos do que no mesmo período de 2013. O resultado já é sentido pelo setor e tem levado a demissões. Segundo a associação, um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego mostra que a indústria calçadista perdeu 10 mil postos de trabalho nos sete primeiros meses de 2014 no comparativo com igual período de 2013. No entanto, a Argentina ainda é o segundo principal destino dos embarques, atrás apenas dos Estados Unidos. 

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