Argentina prepara novo índice de preços

Projeto, que foi assinado em junho de 2011 pelo então ministro Amado Boudou, atual vice-presidente, prevê indicador elaborado em conjunto com técnicos do FMI 

Marina Guimarães, correspondente,

25 de setembro de 2012 | 14h31

BUENOS AIRES - A ameaça da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, de dar "cartão vermelho" para a Argentina, produz os primeiros efeitos no governo de Cristina Kirchner. O ministro de Economia, Hernán Lorenzino, deve tirar da gaveta o projeto para criar um novo Índice de Preços ao Consumidor (IPC). O projeto, que foi assinado pelo então ministro Amado Boudou, atual vice-presidente da República, em junho do ano passado, prevê um indicador nacional que será elaborado em conjunto com técnicos do FMI.

A principal exigência do organismo é que o IPC nacional obedeça aos padrões internacionais de estatísticas e dê transparência aos preços e aos demais números da economia argentina medidos pelo Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec). Fontes oficiais disseram que Lorenzino conversou com autoridades do FMI na sexta-feira passada e se comprometeu a retomar as conversas sobre o novo índice dentro de 15 dias, durante a assembleia anual do FMI e do Banco Mundial, em Tóquio.

Lorenzino era vice-ministro de Economia quando Boudou assinou o acordo com o FMI sobre a elaboração do IPC nacional e participou das negociações. Naquela ocasião, o movimento da equipe econômica foi interpretado pelos analistas como uma manobra para evitar uma sanção do organismo multilateral, que já vinha ameaçando a Argentina havia um ano. O acordo de 2011 previa a entrada em vigor as novas estatísticas em janeiro último.

Analistas, bancos, sindicatos, institutos privados e opositores denunciam que o Indec está sendo manipulado por funcionários comandados pelo secretário de Comércio, Guillermo Moreno, desde janeiro de 2007, quando o IPC passou a distanciar-se das altas reais dos preços de bens e serviços praticados no país. Os levantamentos feitos pelo Indec apontam inflação anual inferior a 10%, enquanto os demais indicam alta de 25%. Embora o Indec não reconheça o elevado custo de vida, a própria presidente o fez, recentemente, ao autorizar aumento de 24% dos valores dos planos sociais à população carente.

Ontem, Lagarde reiterou que o país tem somente até o dia 17 de dezembro para normalizar suas medições. Caso contrário, levará "cartão vermelho", que poderia implicar impedimento ao acesso aos créditos do FMI, perda de direito de voto no Conselho do Fundo e até expulsão. O país quitou sua dívida com o FMI em 2006 e não pensa em recorrer a esse mecanismo novamente. Uma eventual expulsão poderia prejudicar ainda mais a imagem já desvalorizada da Argentina junto ao mercado internacional, onde está isolada desde dezembro de 2001, quando declarou default.

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