Argentina prepara pesificação plena e indexação

O governo argentino deixou claro, hoje, que vai promover a total pesificação da economia e que não haverá novas flexibilizações nos depósitos congelados na rede bancária, o ?curralzinho?, nos próximos três meses. Adiantando-se à reação barulhenta dos poupadores, em novos panelaços, a equipe econômica sinalizou que o poder aquisitivo dos depósitos bancários em dólares, convertidos em pesos pelo câmbio oficial, será preservado por meio da indexação, vinculada a indicadores inflacionários. Também antecipou que, em seis ou oito meses, o país começará a sair da crise. Hoje, o ministro do Interior, Rodolfo Gabrielli, confirmou que os depósitos em dólares seriam transformados em pesos, de acordo com a cotação oficial 1,40 peso por dólar. Mas tratou de reiterar a garantia de igual poder de compra dos depósitos, seguindo a mesma linha de recentes declarações do presidente argentino, Eduardo Duhalde. No último sábado, Duhalde havia enterrado sua promessa de posse, de devolver os depósitos na mesma moeda em que haviam sido feitos, ao admitir que seria impossível cumpri-la. ?Se os dólares não existem mais, o que há de se fazer é cumprir com o que o presidente disse e fazer com que as pessoas recebam o equivalente em pesos?, afirmou Gabrielli. ?Não há outro caminho. As pessoas têm de saber que suas economias serão respeitadas?. Em entrevista publicada ontem pelo jornal Clarín, o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, afirmou que o poder aquisitivo dos depósitos será mantido com a vinculação a um indicador monetário. De acordo com os seus cálculos, o impacto da inflação nos preços, até o momento, foi de apenas 1,9% e caminha bem. Entretanto, para o jornal La Nación, Remes Lenicov sugeriu que a indexação não deverá se estender a todos os setores da economia argentina, ao declarar que os salário não serão corrigidos por indicadores inflacionários. No caso brasileiro, a indexação garantiu parcialmente a recomposição de perdas salariais, na época de inflação elevada. Mas tornou-se um dos mecanismos mais difíceis de serem desmontados pelo Plano Real. Em ambas as entrevistas, Remes Lenicov tentou explicar os caminhos que está seguindo. A flexibilização do curralzinho, que entra em vigor amanhã, foi uma saída rumo à pesificação da economia, e não à dolarização, conforme declarou. Essa questão, bem como seus impactos na saúde do sistema financeiro do país, deverá ser tema das conversas que terá nesta semana com seis ou sete técnicos estrangeiros com experiência em crises financeiras e bancárias. Entre eles, mencionou o presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga. ?Não podemos apresentar um programa econômico que não atenda a esse tema?, afirmou Remes Lenicov, ao referir-se à completa pesificação da economia argentina como parte essencial do plano que apresentará ao Fundo Monetário Internacional (FMI) entre o final de janeiro e o início de fevereiro. Em outro ponto, mencionou que não deverá adotar novas medidas para flexibilizar o curralzinho nos próximos dois ou três meses, até que a Argentina ganhe credibilidade e certeza econômica. O ministro reconhece que a medida é antipática e que pode resultar em mais panelaços. Mas deixa claro sua opinião de que, em seis ou oito meses, o país poderá sair da crise, caso sejam criadas as condições para a normalidade. Ao falar sobre os depósitos, Remes Lenicov se esforça para esclarecer aos poupadores que os dólares que eles acreditavam estar depositados nas suas contas bancárias eram ilusão. O esclarecimento faz parte da estratégia do governo, de aplacar a população. ?Nos últimos anos, gerou-se um sistema perverso. As pessoas depositavam pesos, mas as enganavam e lhes diziam que eram convertidos em dólares?, afirmou o ministro ao Clarín. ?Assim, a Argentina chegou ao cúmulo de criar dólares que, na verdade, não existiam. Não há dólares?. Outro passo da estratégia de Remes Lenicov diz respeito à flutuação plena do peso. Embora na semana passada tenha mencionado a Fraga sua disposição de unificar o câmbio e de liberar completamente a cotação do peso em março, o ministro argentino ressaltou que há etapas a serem cumpridas. Sem a renegociação da dívida externa, um Orçamento para 2002 razoável e um acordo internacional, a unificação dos câmbios vigentes seria impossível. O ministro argentino ainda confirmou que o seu programa econômico incluirá a reestruturação dos bancos do país, com a finalidade de fortalecer o sistema financeiro e de garantir o crescimento econômico. Mas deixou claro que não quer um sistema totalmente ?estrangeirado? e que as reformas podem atingir bancos estatais. O tema também deverá ser discutido com Fraga. ?A Argentina tem de ter bancos sólidos, solventes, líquidos e efeicientes. E tem de haver um sistema bancário nacional?, afirmou ao Clarín.Leia o especial

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