Werther Santana/Estadão
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Argentina pressiona, mas importação de carros brasileiros não recua

Montadoras do país vizinho descumprem acordo comprando automóveis do Brasil acima dos limites estabelecidos, sob risco de serem multadas

André Ítalo Rocha e Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 05h00

O esforço da Argentina para reduzir a entrada de carros brasileiros tem se mostrado em vão. A importação de veículos do Brasil feita pelas montadoras instaladas no país vizinho – que tem ajudado as fabricantes locais a ampliarem a produção – permanece acima dos limites estabelecidos em acordo comercial entre os dois países, o que pode resultar em multas.

O descumprimento da regra ocorre mesmo após o governo argentino ter anunciado, sete meses atrás, que exigiria das montadoras responsáveis pelo excesso o depósito de garantias equivalentes às multas que, se confirmadas, deverão ser pagas após o fim do acordo, em 2020.

Pelo acordo, para cada US$ 1 que a Argentina exporta para o mercado brasileiro em veículos e autopeças, o Brasil pode exportar US$ 1,5 para lá. É o que os dois governos chamam de “flex” (ver quadro). Essa proporção, no entanto, chegou a US$ 1,85 em 2016 e a US$ 2,34 no ano passado. Mesmo após o alerta do presidente Mauricio Macri, de pedir garantias do pagamento de eventuais multas, a balança manteve o desequilíbrio. De julho de 2017 a janeiro deste ano o flex ficou em US$ 2,19.

A explicação é que, nesse período, enquanto o Brasil começava a se recuperar da pior crise de sua história – que derrubou as vendas de carros à metade, – a Argentina seguia com seu mercado a todo vapor, com vendas de 883 mil unidades no ano passado, 22,5% a mais que em 2016.

Boa parte da demanda foi atendida pelos carros fabricados no Brasil, pois a produção ficou estável, em 472 mil unidades, segundo a associação das montadoras argentinas (Adefa). Talvez seja isso que tenha colocado Macri em alerta. O Brasil, por outro lado, aumentou sua produção em 25% no ano passado, e as exportações cresceram 46,5%, para 762 mil unidades, mais da metade destinada ao país vizinho.

“Tudo indica que o Brasil, embora deva manter suas exportações em alta, também vai importar mais este ano, especialmente o setor automotivo, em razão da recuperação econômica”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Mesmo com esse cenário, a Argentina começou a notificar neste mês as montadoras que deverão fazer o depósito de garantia da multa por ter extrapolado o flex. Das empresas brasileiras que exportam para o país, somente a Fiat confirmou que sua subsidiária está nesse grupo.

As montadoras argentinas terão de depositar o equivalente a 24,5% do valor excedente importado. Segundo analistas, por se tratar de empresas do mesmo grupo, é possível que as marcas instaladas no Brasil possam colaborar com eventuais multas. Não foi divulgado, por enquanto, valores e prazos para o depósito das garantias.

Pressão. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) reforçou ontem que a aferição das cotas é prevista para ocorrer no fim do acordo e que o governo entende que, com a retomada do crescimento da economia brasileira, a tendência é de aumento das importações de produtos argentinos, reduzindo a pressão existente hoje.

“Acreditamos que, em 2020, o índice estará dentro do acordado, com aumento do comércio bilateral, com consequente incremento da integração produtiva”, avalia o secretário de Desenvolvimento e Competitividade Industrial do Mdic, Igor Calvet.

Na opinião do presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale, a proporção do flex não deverá subir mais, uma vez que o mercado brasileiro voltou a crescer.

“A tendência é que o flex se estabilize, para depois voltar a cair”, diz. Megale lembra que o acordo prevê que o flex suba de 1,5 para 1,7 a partir de julho de 2019, o que facilitará o equilíbrio comercial entre os dois países.

As montadoras têm anunciado investimentos na Argentina para produzir modelos que terão o Brasil como importante cliente, outra medida que ajudará o setor a cumprir o acordo. A Fiat investiu US$ 500 milhões para produzir o sedã Cronos, apresentado na semana passada. A Volkswagen fará aporte de US$ 650 milhões para a produção um utilitário esportivo e a GM vai investir US$ 500 milhões em “um carro global de alto valor agregado”./COLABOROU LORENNA RODRIGUES

BRASIL RESPONDE POR METADE DO DÉFICIT COMERCIAL ARGENTINO

O déficit comercial argentino com o mundo foi recorde no ano passado, de US$ 8,4 bilhões, o que acendeu o alarme no governo Macri. O Brasil responde por US$ 4,6 bilhões desse valor.

“Não vejo uma medida contra o Brasil, mas uma reação contra um déficit comercial elevadíssimo com o mundo”, diz o economista Marcelo Elizondo. Os carros feitos no Brasil são os mais baratos à venda na Argentina. O país importa modelos pequenos enquanto produz modelos maiores. “Há mais complementaridade do que concorrência no setor”.

Para o secretário da Indústria da Argentina, Martín Etchegoyen, o acordo assinado entre os dois países em 2016 é equilibrado para ambas as partes. Ele defende a aplicação da garantia de pagamento de eventuais multas prevista no acordo. “É uma espécie de pagamento antecipado de exportações que terão de ocorrer mais adiante para cumprir o acordo”. A Associação de Fabricantes de Automotores da Argentina (Adefa) não comentou o assunto. / MÁRCIO RESENDE, ESPECIAL PARA O ESTADO, DE BUENOS AIRES

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