Argentina quer mais tempo para negociar com credores

Em carta a juiz dos EUA, governo de Cristina Kirchner pede suspensão imediata de pagamento aos 'holdouts'

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2014 | 02h01

Os mercados reagiram eufóricos ontem no primeiro dia útil após o discurso que a presidente Cristina Kirchner deu no feriado de sexta-feira sobre sua disposição de negociar com os "holdouts" (denominação dos credores que não aderiram às reestruturações dos títulos da dívida pública) e assim encerrar uma feroz disputa nos tribunais internacionais, além de afastar o risco de um virtual calote técnico da Argentina.

O alívio foi reforçado ontem no início da tarde pelo ministro da Economia, Axel Kicillof, que no intervalo dos jogos Holanda-Chile e Austrália-Espanha, fez um rápido anúncio informando que o governo havia enviado ao juiz federal Thomas Griesa, de Manhattan, uma carta na qual solicitava "respeitosamente" a suspensão da sentença de pagamento imediato aos holdouts. Segundo o governo, a intenção é negociar com os holdouts e pagar os credores que possuem bônus reestruturados.

Na carta, em tom conciliador, o governo Kirchner também expressava a vontade de negociar "equitativamente" com os holdouts. Pouco depois, o juiz Griesa emitiu um aceno à Casa Rosada ao designar Daniel Pollack, "mestre especial" em litígios financeiros, como mediador numa virtual negociação entre os holdouts e o governo Kirchner. A presidente Cristina publicou a íntegra da carta argentina e - evitando as críticas que antes fazia contra Griesa e os holdouts - insistiu no "diálogo de boa-fé" na sua conta na rede social Twitter.

Mercado. Nesse cenário de perspectivas de calmaria, após uma semana turbulenta, a Bolsa de Valores de Buenos Aires concluiu a jornada com uma alta de 8,7%, enquanto os bônus da dívida pública registraram alta de até 13%. Simultaneamente, a cotação paralela do dólar - termômetro real sobre o ânimo dos argentinos em relação à economia e o governo - deixou de lado a disparada da semana passada e terminou o dia em queda de 60 centavos, encerrando em 11,80 pesos.

Do total de títulos argentinos declarados em estado de calote no dia 23 de dezembro de 2001 pelo peronista Adolfo Rodríguez Saá, que então era presidente provisório da República, 92,4% estão nas mãos de credores que participaram das reestruturações da dívida em 2005 e 2010 feitas pelos governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e de Cristina Kirchner. Os 7,6% de títulos restantes estão nas mãos dos holdouts. Estes, insatisfeitos com as duas propostas de reestruturação dos bônus, optaram por recorrer aos tribunais internacionais para obter o pagamento dos títulos.

Ao longo da última década, o governo Kirchner chamou os holdouts de "abutres" e os acusou de "conspirar" contra a Argentina. Além disso, Cristina havia prometido que jamais negociaria com esses fundos.

Na segunda-feira da semana passada, a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou o pedido argentino para revisar determinações do juiz Griesa que obrigava o país a pagar US$ 1,3 bilhão a um grupo de holdouts representados pelo fundo NML.

Na ocasião, o cenário deixava claro que Griesa poderia declarar o embargo de um pagamento que a Argentina havia programado para o dia 30, em Nova York, destinado aos credores dos títulos reestruturados.

Nesse dia 30 a Argentina teria de desembolsar US$ 900 milhões. Desses, US$ 250 milhões seriam pagos em território americano, e, portanto, eram potencialmente embargáveis. No entanto, isso provocaria um virtual "calote técnico" da Argentina.

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