Argentina recebe primeiro empréstimo desde o default

Depois de passar cinco meses sem receber qualquer espécie de ajuda financeira proveniente do exterior, o governo do presidente Eduardo Duhalde conseguiu nesta segunda-feira do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) um empréstimo de US$ 694 milhões.O presidente do BID, Enrique Iglesias, veio especialmente à Buenos Aires para a assinatura do acordo do empréstimo, que será exclusivamente destinado a programas sociais de emergência. Se a Argentina conseguir fechar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que está sendo negociado sem resultados desde fevereiro, o BID vai entregar uma segunda remessa, de US$ 700 milhões.Primeira ajudaDesde que o país declarou default em dezembro, esta é a primeira ajuda financeira que recebe do exterior. No entanto, o default excluiu os organismos financeiros internacionais. De lá para cá, a Argentina continuou pagando as dívidas que tinha com o FMI, o Banco Mundial e o BID. Nesta segunda-feira, dois dias antes do vencimento, a Argentina pagou uma dívida com o Banco Mundial, de US$ 680 milhões.Para este desembolso, o governo utilizou parte das reservas do Banco Central que pertenciam originalmente à ?blindagem financeira? concedida pelo FMI no ano passado. Uma porção das reservas ? US$ 159 milhões ? foi usada na semana passada para o pagamento de uma dívida com o FMI. O governo Duhalde tenta evitar a todo custo um default com os organismos financeiros internacionais, já que uma eventual suspensão do pagamento das dívidas implicaria suprimir a única fonte de créditos que o país ainda tem.?Difícil digestão?Com a voz em um tom cada vez mais desanimado, o presidente Duhalde declarou nesta segunda-feira que tinha a sensação de que o FMI aumenta as exigências cada vez que seu governo está perto de conseguir um acordo. ?Estão fazendo isso desde que tomei posse?, lamentou o presidente.Duhalde afirmou que o FMI possui algumas posturas ?de difícil digestão? e que a Argentina não pode ajoelhar-se diante do organismo financeiro. No entanto, admitiu que é preciso conseguir um acordo com o Fundo. O presidente disse que o país deixou de pagar suas dívidas e que por isso ninguém mais acredita na Argentina. Duhalde não descartou que, em retaliação, nos próximos tempos ocorram embargos contra as exportações provenientes da Argentina.Nesta segunda-feira, desembarcou em Buenos Aires uma missão do Banco Mundial para analisar saídas para a crítica situação dos bancos instalados na Argentina. Outra missão, neste caso do FMI, chega na próxima quarta-feira para estudar saídas alternativas para o impasse do ?corralito? (denominação do semicongelamento de depósitos bancários).Semana tensaAlém do empréstimo do BID, a Argentina também recebeu ajuda financeira do governo da Itália, que concedeu ao país um crédito de 75 milhões de euros. O empréstimo, que pode ser pago em 36 anos (com 18 de carência e uma taxa de juros de 0,5%) é destinado exclusivamente às pequenas e médias empresas.A semana deve ser cheia de momentos de tensão, já que o governo tentará mais uma vez implementar medidas que são exigidas pelo FMI como condição sine qua non para liberar a ajuda financeira para o país. Na próxima quinta-feira, a Câmara de Deputados deve debater e votar a eliminação da lei de subversão econômica.Esta lei, que permitia que a Justiça processasse com grande facilidade empresários e banqueiros, é abominada pelo FMI. Além disso, no mesmo dia, o Senado deve debater e votar a reforma da lei de falência das empresas. Com a reforma, ficará complicado para os empresários renegociarem suas dívidas com os bancos credores.Duhalde pretende participar das reuniões entre a União Européia e os países latino-americanos em Madri já com as medidas aprovadas, como forma de demonstrar que possui algum controle do Congresso Nacional. No entanto, diversos analistas consideram que dificilmente as medidas serão aprovadas.ProvínciasPara complicar o cenário de Duhalde, as províncias argentinas ? consideradas pelo FMI as vilãs da crise do país ? ainda não assinaram os acordos individuais de ajuste de 60% de seus déficits fiscais. Além disso, mais províncias anunciaram a emissão de novos bônus, utilizados por elas como ?moedas paralelas? para o pagamento de salários de funcionários públicos e fornecedores do Estado.Estas ?moedas paralelas? são intensamente criticadas pelo Fundo, que as considera um instrumento para as províncias camuflarem seus elevados déficits fiscais. Em Chubut, o governador José Lizurume decidiu emitir mais de 30 milhões de pesos em bônus ?Petrol?. A província de Córdoba determinou a emissão dos ?Decof?, que serão utilizados no pagamento dos fornecedores do Estado. No total, serão 850 milhões de pesos equivalentes nessa nova moeda paralela.Além delas, a província de Entre Ríos também aprovou a emissão de 112 milhões de pesos em bônus ?federales?. A província de Buenos Aires, a mais rica, mas também a mais endividada do país, anunciou que possivelmente não poderá resgatar com pesos a primeira emissão de seus bônus ?patacones?, que vencem em julho. Por isso, pretende resgatar os patacones com mais patacones, incluindo os juros de 7%.Teoricamente, pelo que ficou estipulado no Pacto Fiscal assinado há mais de um mês entre os governadores e o governo federal, a partir de junho nenhuma província poderá continuar a emitir bônus. As províncias argumentam que, enquanto não chegar a ajuda do FMI, não será possível suspender a emissão de bônus.ImóveisO presidente Duhalde confirmou nesta segunda-feira que está analisando a possibilidade de entregar imóveis pertencentes ao Estado como forma de compensar os correntistas que têm seus depósitos presos dentro do ?corralito?.Leia o especial

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