Argentina rejeita diálogo com Uruguai

O governo do presidente Nestor Kirchner rejeitou de forma categórica a oferta de diálogo realizada pelo presidente uruguaio, Tabaré Vazquez, para tentar encontrar uma solução à denominada "Guerra da Celulose", travada há quase um ano entre a Argentina e o Uruguai. Os representantes uruguaios propuseram durante a cúpula do Mercosul realizada na cidade argentina de Córdoba a criação de uma comissão binacional para fiscalizar a construção e o funcionamento das polêmicas fábricas de celulose - pertencentes à espanhola Ence e à finlandesa Botnia - que estão sendo construídas no município uruguaio de Fray Bentos, sobre o rio Uruguai, na fronteira dos dois países.O deputado Roberto Conde, uma das principais lideranças da Frente Ampla (coalizão de centro-esquerda que governa o Uruguai) fez um apelo: "a única saída possível é a de trabalhar juntos, como irmãos, até que prime a razão". No entanto, o governo Kirchner tratou a proposta com desprezo. Poucas horas antes da chegada de Vázquez para participar da cúpula de presidentes do Mercosul em Córdoba, o chanceler argentino, Jorge Taiana, remeteu uma carta ao presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, para pedir que a Corporação Financeira Internacional (CFI) mantenha congelados os fundos que seriam destinados para a construção das duas fábricas de celulose que são o pivô do conflito bilateral.Mais tensãoPara acrescentar mais tensão à cúpula presidencial, amanhã três centenas de habitantes da cidade argentina de Gualeguaychú, na fronteira com o Uruguai, realizarão uma marca de protesto contra o presidente Vázquez. Os manifestantes exigem o fim da construção das fábricas, alegando que elas causarão um "apocalipse" ambiental e econômico. A expectativa é que a comitiva de Gualeguaychú seja acompanhada por milhares de cordobeses e militantes ecológicos provenientes de várias áreas do país.Os uruguaios defendem as obras, argumentando que elas permitirão a recuperação econômica do país. As empresas investirão US$ 1,8 bilhão, que consistirá o maior investimento da História do Uruguai (e equivalerá a 13% do PIB).Com a Guerra da Celulose, desatada a meados do ano passado, Kirchner encontrou no Uruguai um novo bode expiatório para os problemas argentinos (no ano 2003, após sua posse, os "bodes" foram o FMI e os credores privados internacionais, em 2004, o alvo foram as empresas privatizadas. A fins de 2004 e no primeiro semestre de 2005, o Brasil tornou-se o bode expiatório).Kirchner usou o caso das fábricas de celulose para aparecer como "ecologista" e defensor dos interesses dos argentinos que residem na fronteira com o Uruguai, de olho nas decisivas eleições parlamentares de outubro do ano passado. As fábricas continuarão sendo um ponto importante na agenda de Kirchner, já que ele está prestes a começar sua campanha para a reeleição presidencial.Segundo Taiana, a Argentina mantém sua plena convicção de que os empreendimentos projetados, por sua magnitude, localização e tecnologia, são incompatíveis com a preservação da qualidade ambiental do rio Uruguai e suas zonas de influência.

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