Argentina sofre maior êxodo de sua história

A Argentina pode estar passando pelo maior êxodo de sua história. A afirmação é de Félix Luna, o mais prestigiado historiador argentino ainda vivo. Luna considera que nunca antes na história do país tantos argentinos abandonaram o país, em busca de melhores condições de vida.No total, nos últimos dois anos ? que coincidem com o agravamento da recessão econômica ? foram embora da Argentina mais de 160 mil pessoas. Só em janeiro deste ano, 23 mil argentinos partiram, procurando um futuro melhor.Segundo o Serviço de Estatísticas Trabalhistas (SEL), mais de 1,8 milhão de argentinos têm planos concretos de abandonar o país. A maior debandada de argentinos até agora registrada em um período específico da história do país havia ocorrido durante a última ditadura militar (1976-83), quando a repressão e a perseguição política causaram o exílio de mais de 70 mil pessoas.No total, nos últimos 50 anos, emigraram mais de 600 mil argentinos. Os êxodos anteriores foram causados por questões políticas, como durante o governo do general Juan Domingo Perón (1946-55) e nos governos militares imediatamente posteriores. Em fins dos anos 60, houve uma intensa emigração de professores universitários, perseguidos pelo governo do general Juan Carlos ?La morsa? (?A morsa?) Onganía.O outro grande êxodo ocorreu nos tempos da hiperinflação (1989). Para milhares de argentinos, ficar no país é como aceitar um convite para permanecer no tombadilho do Titanic depois de o navio ter colidido com o iceberg.A Argentina está sendo assolada por um índice de desemprego que atinge 22% da população economicamente ativa e que ameaça chegar a 30% até o fim do ano. A recessão dura mais de três anos e meio e não mostra sinais de estar acabando. Para o analista de questões migratórias, Enrique Oteiza, os argentinos que partem atualmente não o fazem somente por fatos concretos como o desemprego, mas também por falta de perspectivas.Segundo uma pesquisa deste fim de semana, divulgada pelo Gallup, 67% dos argentinos não acreditam que a situação vá melhorar, pelo menos, até o início do ano que vem. Os jovens são os mais ansiosos para partir e tentar não naufragar economicamente como seus pais.Da mesma forma que a emigração era algo natural para os bisavós europeus destes jovens argentinos, a geração entre 18 e 30 anos começa a tocar no tema da emigração como algo natural e necessário, e não mais como um acontecimento traumático que os afastará das famílias e da cultura de seu país.Para o especialista em migrações Lelio Mármora, a mídia também tem sua parcela de culpa, ao colocar a emigração como a única saída econômica. Ao caminhar pelas ruas das principais cidades argentinas, os jovens deste país vêem como a cada dia as lojas fecham as portas para nunca mais reabrir, os sem-teto espalhados pelas ruas e ex-profissionais liberais trabalhando como taxistas, porteiros e biscateiros.O desespero de viver em um país estancado causa há quase dois anos filas enormes nas portas dos consulados da Espanha e da Itália em Buenos Aires. Ao longo do ano de 2001, 8 mil argentinos emigraram para a Espanha. Neste ano, só em janeiro, partiram para o mesmo destino mais de 5 mil. A Itália, o outro alvo migratório, causou a partida de 24 mil argentinos no ano passado. Em janeiro deste ano, já emigraram 4 mil.Cíntia é uma argentina que mora na Alemanha há sete anos. Emigrou quando seus pais, que trabalhavam como funcionários públicos foram demitidos, como resultado do enxugamento da máquina estatal implementada pelo ex?presidente Carlos Menem (1989-99). A qualidade econômica da família entrou em decadência acelerada, o que a levou a procurar alternativas no exterior.Arquivista, Cíntia, de 29 anos, seguiu os passos de uma amiga que havia emigrado, anos antes, na época da hiperinflação para Colônia, na Alemanha, e ali se instalou. Hoje, trabalhando como arquivista em um canal de TV, casada com um alemão e com um filho de cinco anos, explicou ao Estado que sente saudades de sua Lanús natal, na província de Buenos Aires.No ano passado, o ?ataque de saudade? dos amigos e dos quitutes da gastronomia local foi quase irresistível e quis voltar: ?Mas pensei no meu filho, que, aqui, na Alemanha, tem um futuro. Se não fosse por ele, voltaria. Mas sei que seria um suicidío econômico?.Pablo, de 30 anos, emigou em dezembro. É um arquiteto e urbanista que se instalou em Figueres, na Catalunha, Espanha, onde imediatamente conseguiu trabalho. Sua partida o afastou irremediavelmente de sua namorada, com quem estava há cinco anos. ?Mas meus pais, que têm várias doenças, precisam de minha ajuda. Ficando na Argentina, não conseguiria pagar-lhes nem uma aspirina?, explicou ao Estado. ?Aqui, ao acordar, abro a janela e vejo que existe um futuro.?Leia o especial

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