Argentina teme volta da hiperinflação

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que enviou esta semana mais uma missão técnica a Buenos Aires para estudar as metas que a administração Eduardo Duhalde pretende atingir até o fim de seu mandato, escutou do ministro de Economia, Roberto Lavagna, que a Argentina não "aceitará a volta da hiperinflação". Evitando usar um tom desafiador, já que o país se encontra em meio de uma delicada negociação financeira, o ministro afirmou ainda que "o governo vai usar tudo que estiver a seu alcance" para evitar o desequilíbrio fiscal, tanto no âmbito federal como provincial.De fato, a inflação no país caiu de 11% em abril para 4% em maio e 3,6% em junho. Mas o custo de vida no ano acumula ainda uma alta de 30,5% e, sem programas definidos, a inflação ainda pode ir à deriva. Vale lembrar que a explosão dos preços no primeiro semestre ocorreu apesar de as tarifas e salários estarem congelados desde o início do ano. Agora, o FMI quer que o governo Duhalde ajuste as tarifas dos serviços públicos, hoje em mão da iniciativa privada. O Ministério de Economia está com o projeto em mãos, mas espera o momento oportuno para autorizar os reajustes.A exigência do FMI, porém, pode provocar um descontrole dos preços e levar o país a uma hiperinflação, como a do início dos ano 90, antes da implementação da conversibilidade do peso. O ajuste da tarifas, no entanto, é obrigatório para chegar a um acordo com o Fundo, que, por sua vez, é crucial para o destino do país e do próprio ministro. O tempo de Lavagna para resolver o quadro tarifário, a reestruturação do sistema financeiro do país e a goteira do "corralito financeiro" (retirada gradual dos depósitos dos bancos por determinação da Justiça) é cada vez menor.Por isso, esse timing reduzido deve obrigar o governo a autorizar o ajuste das tarifas por meio de um decreto, já que não há mais tempo para que a medida seja tramitada no Congresso. "A relação com as empresas privadas, em sua maioria em mãos de multinacionais espanholas, francesas e norte-americanas, está cada vez mais tensa. O governo precisa dar sinais de alívio com um reajuste tarifário para acelerar a negociação com o Fundo", comentou um funcionário do Ministério de Economia.O aumento das tarifas, congeladas por lei desde a desvalorização do peso e fim da conversibilidade, compensaria, em parte, as perdas das empresas, entre elas a Telefónica, Endesa, France Telecom e Telecom Italia. Na outra ponta estão, porém, grupos que congregam grandes e pequenos usuários. Estes vêm se preparando para uma verdadeira guerra contra o aumento de tarifas, que seria mais um golpe contra o bolso da classe média.A peneira do "corralito", que está enfraquecendo dia-a-dia o sistema financeiro argentino, vem sendo considerada pelo FMI como "emissão monetária", o que detona qualquer previsão sobre a economia do país. Apenas em junho, saíram 1 bilhão de pesos dos bancos, ante 800 milhões, em média, entre fevereiro e maio. A maioria desses recursos se transformou em dólares, daí a cotação ter disparado de 1,4 pesos por dólar, logo depois da desvalorização, para 3,65 pesos.Queda de reservasPor outro lado, as reservas internacionais da Argentina não param de sangrar, apesar de o ministro Lavagna ter afirmado que elas não cairão abaixo de US$ 9 bilhões (mais uma das exigências do FMI). Nos últimos 30 dias, a reservas líquidas do Banco Central passaram de US$ 10,174 bilhões para US$ 9,511 bilhões. Isto é, o BC perdeu US$ 663 milhões. Em seis meses, as reservas derreteram à metade.Pior, para evitar essa sangria e poder cumprir com seus compromissos, o BC vem captando sistematicamente dólares do mercado pagando taxas de juros estratosféricas por meio de títulos de curtíssimo prazo, que não passam de uma semana. A autoridade monetária se viu obrigada a incrementar o custo de financiamento de 60%, em 20 de junho, para uma taxa recorde de 109% no dia 2 de julho e de 119% no dia 4. Para o título de 14 dias, o BC teve de desembolsar uma taxa de juros de 129%.Leia o especial

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