Argentina testa câmbio flutuante e volta ao FMI

Os resultados da viagem do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, que na terça-feira vai a Washington em busca de uma definição para a ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI), poderão ser decisivos para o desenrolar da crise argentina.O grande temor do governo argentino é de que, com a reabertura do mercado de câmbio amanhã, o primeiro dia de livre flutuação do peso, a cotação do dólar dispare e traga de novo o fantasma da hiperinflação, exorcizado há mais de uma década.Ontem, em seu programa de rádio, o presidente Eduardo Duhalde denunciou a existência de uma campanha ?não muito patriótica? que pretende ?aumentar a cotação da moeda americana e gerar um clima de insegurança e incertezas?. Duhalde afirmou que os organizadores dessa campanha seriam ?os setores especulativos que estão esperando fazer um grande negócio com a alta do dólar?.O presidente disse que são absurdas as versões que indicam que o dólar poderia chegar a uma cotação de 10 pesos. Segundo Duhalde, a população precisa ter cuidado com os especuladores que ?tentam caçar alguns otários? nesse ?momento de confusão?. E disse que daqui a poucos dias ?serão dissipadas? as dúvidas existentes sobre seu pacote econômico, anunciado no domingo passado.O governo também planeja a elaboração de um decreto que suspenda por 180 dias as demissões de trabalhadores. A intenção é conter a onda de demissões que em janeiro causou a perda de trabalho para 32 mil pessoas.Enquanto isso, Duhalde conseguiu uma trégua com supermercados e fornecedores, para conter por alguns dias as remarcações de preços, que já causaram altas entre 10% e 40% nos alimentos. Para frear o desabastecimento de medicamentos, provocado pela desvalorização da moeda, o presidente garantiu que o governo fabricará remédios com a ajuda do Exército.O vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, tenta tranqüilizar a população: ?O que acontecer com o dólar na primeira semana não será a tendência que se seguirá depois?. O governo sustenta que o dólar poderá ?dar um pulo? nos primeiros dias, mas que imediatamente ficará em níveis ?razoáveis?. A tradução disso, para o ministro Lenicov, é de US$ 1 para 1,40 peso.Mas, na City financeira portenha, os analistas consideram que o dólar poderá ultrapassar a cotação de US$ 1 para 3 pesos nos próximos dias. Na sexta-feira, no mercado clandestino, a moeda americana chegou a ser cotada a 2,35 pesos. Hiperinflação - Um dos principais economistas do país, Aldo Abram, acredita que o Banco Central ?terá de fazer grandes esforços para evitar que o dólar não dispare?. Segundo Abram, no Brasil, ?desvalorizar deu certo, mas ali nem as pessoas de classe média têm uma cultura dolarizada?. ?Na Argentina, até os mais pobres sabem que ter o dinheiro em dólares é se proteger contra a armadilha da desvalorização.Desvalorizar a moeda e pesificar a economia foi um erro imenso. Os argentinos pensam em dólares. Isso foi causado por décadas de elevada inflação. Essa medida do governo foi como surfar contra as ondas.?O economista não descarta a possibilidade de uma hiperinflação: ?Poderia ocorrer nos próximos meses. O Banco Central terá de optar entre uma dolarização ordenada ou criar uma conversibilidade nova. Mas o mais provável é que os argentinos não acreditem em uma nova conversibilidade?.Abram argumenta ainda que ?é um erro supor que a inflação é produto do excesso de oferta da moeda. A inflação também pode ser o produto da queda da demanda do dinheiro local?. Segundo ele, a Argentina conta com o azar de uma nova liderança no FMI, que ?não entende a conversibilidade econômica?. ?A diretora do Fundo, Anne Krueger, pensa que pode aplicar na Argentina as mesmas fórmulas que o Brasil usou, e está errada.?Explosão ? Para um dos mais importantes analistas da Bolsa portenha, Rafael Ber, da Argentine Research, o dólar ?não deveria ter uma reação explosiva, ou seja, não passaria de 2 pesos?. ?Mas está ocorrendo uma negociação com o FMI, e isso pode influenciar positivamente ou negativamente.?Na opinião de Ber, se o resultado da missão do ministro da Economia a Washington for positiva, o dólar pode ficar entre 1,70 peso a 1,80 peso. ?Mas, se não houver sucesso, pode acontecer qualquer coisa, e aí, será superior a 2,50, sem dúvida.?O analista faz um alerta para o caso de uma eventual disparada da moeda americana: ?Se isso ocorrer, haverá hiperinflação. É vital que não supere os 2 pesos. O Banco Central tem dinheiro para intervir no mercado durante 30 ou 40 dias, tempo que durarão as negociações com o FMI e nada mais?.?O governo está, como dizem os americanos, between a rock and a hard place (entre uma rocha e um lugar duro)?, afirma com ironia o analista político Oscar Raúl Cardoso, para explicar o dilema da administração Duhalde, pressionado tanto no exterior, pelos bancos e organismos financeiros, como no país, pela população e pelo empresariado nacional.Nos últimos dias, foram intensos os comentários em Buenos Aires de que, no caso de uma disparada do dólar e do retorno da hiperinflação, o país corre riscos de explosão social. Na opinião do analista Rosendo Fraga, a cotação do dólar e a reação social são as duas variáveis críticas para a administração Duhalde.?Se o presidente não flexibilizar ou acabar com o ?corralito?, a possibilidade de explosão social continua. Mas, se ele liberar o dinheiro, corre o risco de que todos queiram comprar dólares.?Fraga faz um alerta: ?Não dá para saber se Duhalde terminará seu mandato. Mas fevereiro e março serão os meses cruciais?. Leia o especial

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