Argentina vai deixar de exportar trigo e carne

Em 2010, pela primeira vez desde 1890, o país deixa de vender trigo; e os baby beefs podem até faltar na mesa dos argentinos no ano que vem

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Trigo e carne bovina foram símbolos da agricultura da Argentina por quase um século e meio. Mas os ícones da economia rural da Argentina devem deixar de fazer parte de sua pauta de exportação a partir do ano que vem. Em 2010, pela primeira vez desde 1890, a Argentina - país que na primeira metade do século 20 era chamado de "O Celeiro do Mundo" - não exportará trigo. O anúncio foi feito pelo Centro de Exportadores de Cereais (CEC) durante o congresso "A todo trigo", na cidade de Mar del Plata. O CEC calcula que a colheita 2009-2010 não terá saldo a exportar. Dessa forma, seria suficiente apenas para abastecer o mercado interno. A superfície semeada com trigo é 18% menor que a do ano passado (esta já havia sido a menor dos últimos 20 anos). No ano que vem, a produção argentina pode ser de 6,3 milhões de toneladas. Calcula-se que o mercado interno total de trigo é de pouco mais de 6 milhões de toneladas.O Brasil, que no último ano e meio sofreu reduções drásticas do abastecimento de trigo argentino, ficaria com o fornecimento do país vizinho totalmente cortado.Por trás da crise no setor do trigo está a política do governo Cristina Kirchner de aplicar pesados tributos sobre a produção agrícola, as restrições para as exportações (de forma a redirecionar o produto para o mercado interno, e assim forçar uma baixa dos preços). Esta política confrontou o governo com os ruralistas, que no ano passado fizeram cinco locautes em protesto contra a presidente. De quebra, no segundo semestre de 2008 o setor foi assolado pela maior seca desde 1961. BABY BEEF, SÓ AQUIOs emblemáticos baby beefs "made in Argentina", que desde o fim do século 19 foram um dos principais elementos de exportação do país, devem passar a ser consumidos somente no país. O presidente da Sociedade Rural, Hugo Biolcatti, confirmou as conclusões de um estudo do governo Cristina, indicando que em 2010 a Argentina não terá estoque para exportar. A produção de carne bovina - das 3,11 milhões estimadas para este ano - despencaria para 2,67 milhões em 2010. Por trás da queda estão as controvertidas políticas do governo para o setor, que desde 2006 sofre pressões tributárias, além de restrições para a exportação.Mas, além da insólita possibilidade de não poder exportar, as avaliações da Sociedade Rural indicam que a Argentina poderia deparar-se com a necessidade de importar carne. Essa seria única forma de abastecer o voraz mercado interno. Segundo Biolcatti, o país precisaria importar mil toneladas para completar a demanda interna. Os argentinos são os maiores consumidores de carne bovina do mundo. Apesar das seis crises econômicas dos últimos 34 anos, o consumo anual é de 68 quilos per capita. Em 2011, segundo a Sociedade Rural, a produção anual não chegará a 50 quilos por habitante. "Há mais de um ano e meio tentamos conversar com o governo sobre uma política pecuária, sem resultados!", lamenta Biolcatti.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.