Argentinos querem carnaval antiuruguaio

A menos de duas semanas da Cúpula de presidentes do Mercosul e a um mês e meio do Carnaval, os manifestantes argentinos que exigem a remoção de fábricas de celulose do lado uruguaio da fronteira planejam realizar festividades carnavalescas com um tom intensamente antiuruguaio. A idéia é que o principal ponto do carnaval argentino, a cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, na fronteira com o Uruguai, arrecade fundos durante os dias de festejos para financiar as manifestações que os habitantes argentinos da região da divisa com o país vizinho realizam diariamente contra a instalação de fábricas de celulose.No cardápio das manifestações incluem-se piquetes nas pontes que ligam os dois países e bloqueios no porto de Buenos Aires dos navios que transportam turistas argentinos para as praias uruguaias neste verão. Ao longo do último ano e meio os piquetes argentinos desataram uma crise diplomática e comercial entre o Uruguai e a Argentina sem precedentes desde 1955. A crise também teve o efeito colateral de abalar as bases do Mercosul. De quebra, o presidente argentino, Néstor Kirchner, respaldou os manifestantes para tirar proveito político dessa crise e reforçar sua popularidade.Liderados pela poderosa e combativa Assembléia Popular de Gualguaychú, uma ONG que transformou-se ao longo do último ano e meio em um "governo paralelo" na região da fronteira, os manifestantes já começam a vender um amplo leque de produtos que incluem adesivos, bonés, camisetas, blusas e sandálias com os dizeres "Não às fábricas de celulose". Os elementos para o merchandising antiuruguaio estão sendo doados pelos empresários da região, que colaboram ativamente com a Assembléia. O público-alvo são os 300 mil turistas que visitam Gualeguaychú ao longo de seu prolongado carnaval (começa neste sábado e termina no final de fevereiro). Além disso, pretendem que os cartazes anticelulose sejam vistos em todo o país, ao vivo, pela TV, durante a transmissão dos desfiles cada fim de semana.Simultaneamente, a tensão entre habitantes dos dois lados da fronteira cresce dia a dia. Do lado argentino diversos comércios exibem cartazes com os dizeres "não vendemos a cidadãos uruguaios". Vários grupos sociais pedem a implementação de boicote contra produtos provenientes do Uruguai. Em Montevidéu, empresários e sindicatos afirmam que a Argentina está realizando um novo bloqueio econômico que está asfixiando a economia uruguaia. No ano passado, os piquetes argentinos causaram perdas de mais de US$ 400 milhões ao Uruguai.Os manifestantes argentinos exigem que nenhuma fábrica de celulose seja construída sobre o rio Uruguai, pois consideram que causaria uma catástrofe ambiental com graves conseqüências econômicas para a região da fronteira. Os uruguaios defendem a construção, alegando que as fábricas possibilitarão a reativação econômica do país.O alvo atual dos protestos argentinos é a fábrica da empresa finlandesa Botnia, que está sendo construída a todo vapor no município uruguaio de Fray Bentos. Os intensos protestos realizados no ano passado levaram a empresa espanhola Ence a suspender seus planos de instalar-se em Fray Bentos (esta fábrica seria construída em outra região do Uruguai).PortoEnquanto isso, permanece a tensão no porto de Buenos Aires, já que nesta semana os manifestantes anticelulose prometeram realizar piquetes-surpresa nas docas portenhas para impedir a partida de navios com turistas argentinos para as praias uruguaias. O promotor Martín Lapadú ordenou que a Polícia Naval detenha os manifestantes que façam piquetes no porto. Mas, um dos líderes da Assembléia de Gualguaychú, Jorge Fritzler, desafiou, irônico: "a Polícia precisará de alojamento para milhares de pessoas nas prisões".Fritzler referia-se à grande capacidade de convocação popular da Assembléia. Em abril passado, ela reuniu 100 mil pessoas no acesso à ponte Gualeguaychú-Fray Bentos. A Assembléia conta com o respaldo de milhares de simpatizantes de grupos sociais e ambientalistas esquerda na capital argentina.No último ano e meio os manifestantes foram respaldados ostensivamente pelo presidente argentino Néstor Kirchner, que - com intenções eleitorais, já que nunca mostrou preocupações ambientais - deixou claro que jamais reprimirá os piquetes na fronteira. Kirchner chegou ao ponto de pedir, sem resultados, à Corte Internacional de Haia e ao Banco Mundial que impedissem a construção da fábrica. No entanto, nos últimos dias o governo emitiu o recado de que embora aceite os piquetes na fronteira, não concorda com o bloqueio ao porto.Cúpula quenteA denominada "Guerra da Celulose" promete esquentar a Cúpula do Mercosul (que será realizada no Rio de Janeiro nos dias 18 e 19) já que o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez não pretende que mais um convescote presidencial passe sem que o assunto - crucial para a economia uruguaia - seja discutido. O Brasil e a Argentina já se recusaram a conversar sobre a crise argentino-uruguaia na cúpula de Montevidéu em dezembro de 2005 e na de Córdoba em julho de 2006. O governo brasileiro costuma afirmar que não deve intrometer-se na briga entre os dois sócios.Além da Guerra da Celulose, a tensão da cúpula já está sendo turbinada pela decisão do governo do presidente Kirchner de reclamar à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o Brasil pelas medidas antidumping aplicadas contra a entrada, no mercado brasileiro, de resinas de PET fabricadas na Argentina.

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