Argentinos realizam panelaços contra o governo Kirchner

Manifestantes pedem diálogo entre governo e ruralistas; tensão no país já se assemelha à crise de 2001

Marina Guimarães, da Agência Estado,

17 de junho de 2008 | 07h33

A Argentina começa a repetir imagens daquele dramático dezembro de 2001, quando panelaços ecoaram em todo o país para pedir a renúncia de Fernando De la Rúa, antecipando a pior recessão de sua história e uma crise institucional sem precedentes em sua era democrática. As panelas que voltaram a ressoar no país na noite de segunda-feira, 16, ainda não foram um bis do "que se vayan todos" (que saiam todos, em português) repetidos e endereçados ao ex-presidente De la Rúa.   Por enquanto, os argentinos estão pedindo diálogo do governo com o setor agropecuário para por fim a um conflito que tomou a população como refém por quase 100 dias. Mas esta foi a terceira vez, neste ano, que os portenhos e o povo do interior foram às ruas para protestar contra o governo.   O panelaço replicado pelos bairros de Buenos Aires e pelas principais cidades argentinas foi em apoio ao campo para que o governo reveja a medida de 11 de março que aumentou as "retenciones" (os impostos de exportações) dos grãos. O panelaço também foi um "basta" ao estilo autoritário de governar de Cristina Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, que tem o poder de fato da Casa Rosada.   "Estamos fartos da inflação, da arrogância da presidente e de seu discurso setentista (da década de 70) que divide a população entre esquerda e direita golpista, contra ou favor do governo", disparou a professora primária, Suzana González, em um dos panelaços do bairro de classe média Caballito, à AE.   "Eu não sou nem de direita, nem de esquerda, muito menos golpista, mas não concordo com essa falta de diálogo em plena democracia e essas medidas baixadas com autoritarismo", completou a professora. A classe média está nas ruas para pedir um gesto do governo para interromper a situação de caos em se encontra o país com os bloqueios nas rodovias cada vez mais intransigentes; incêndios intencionais em plantações inteiras e em "silobolsas" (sacos onde os produtores armazenam suas colheitas); escassez de combustíveis e de alimentos; transportes públicos urbanos e rurais paralisados por falta de diesel; disparada de preços.     Inflexibilidade     O aprofundamento da crise política e institucional que sacode a Argentina é cada vez maior em meio à crescente tensão social e acusações de golpe de Estado. A inflexibilidade do governo de dialogar é tão grande que a presidente Cristina Kirchner não aparece em público desde o último sábado, quando 19 produtores rurais sofreram repressão e foram presos. Os ministros também não apareceram nas últimas 24 horas e em lugar do governo só apareceu o piqueteiro Luis DElia, aliado do ex-presidente Néstor Kirchner, com sua polêmica acusação contra o ex-presidente Eduardo Duhalde, de que está armando um golpe de Estado junto com o jornal Clarín e os quatro dirigentes das entidades rurais.   "As expressões de DElia são extensões do que pensa (Néstor) Kirchner", sintetizou o analista político Rosendo Fraga. "O governo está convencido de que as reivindicações do campo e seus protestos são obra de um golpe", completou. Com este raciocínio, DElia e Néstor Kirchner entraram em cena para convocar à mais um ato público (o terceiro desde que a crise começou), amanhã, na Praça de Maio. A AE conversou com cinco renomados analistas políticos argentinos e todos eles disseram que não existe clima para golpe de Estado, nem na oposição, nem entre o agro.   O que sim existe é a divisão do Partido Justicialista (PJ), também chamado de peronista, para tentar capitalizar politicamente a insatisfação popular que vem sendo registrada por causa da inflação e do estilo de governar dos Kirchner, como explicou o analista Sérgio Berenztein, diretor da consultoria Poliarquia. O jornalista e analista político do jornal La Nación, Carlos Pagni, publicou em sua coluna de ontem que os peronistas insatisfeitos com o estilo "K" e que apóiam o campo estão se aglutinando e o partido está fraturado, dissolvendo o poder do casal Kirchner.   Racha peronista- Os novos-velhos caciques peronistas estariam se alinhando à facção denominada União Popular, baixo a batuta de Duhalde, junto com o atual e o ex-governador de Córdoba, Juan Schiaretti e José Manuel de la Sota, respectivamente; o senador de Santa Fe, Carlos Reutemann; o governador de San Luis, Alberto Rodríguez de Saá, ao lado de seu irmão Adolfo Rodríguez Saá, que durante seus parcos dias de presidente no fatídico dezembro de 2001, decretou o default da dívida com largos sorrisos e festejos; entre outras importantes figuras do partido.   Essa divisão do apoio ao governo ocorreu diante da inabilidade dos Kirchner para lidar com a crise que consumiu praticamente todo o capital político de Cristina. De uma aprovação de 56%, em janeiro, a presidente caiu para cerca de 20%, em maio, segundo a última pesquisa elaborada pela Poliarquía, mas que ainda não foi divulgada. "A jogada peronista é para impedir que a oposição capitalize politicamente esse mau humor da classe média com esta série de erros políticos que Kirchner está cometendo", confiou à AE um ex-peronista sem partido e que ocupa um importante cargo público.   Diante da perda de poder, Kirchner poderia recuar em sua convocação para o ato público desta quarta-feira. Ontem à noite, vários governadores, prefeitos e parlamentares justicialistas anunciaram que pedirão ao ex-presidente e atual presidente do PJ, Kirchner, que desista do ato. O piqueteiro DElia convocou a população para armar-se em defesa do governo na Praça de Maio e essa convocação ao conflito também foi rejeitada pelos panelaços de ontem e pelos peronistas moderados.   Diante do cenário de confronto, o governador de Chubut, Mario das Neves, aliado "K", foi o primeiro a anunciar que não vai ao ato. "Não estou de acordo com a metodologia de ato contra ato", justificou das Neves em referência à que neste dia, o campo realizará uma mobilização popular de apoio às suas reivindicações e várias assembléias para decidir se continuam com o locaute de grãos para exportação.

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