Argentinos se preparam para mais uma crise

País começa a sofrer sua sexta grande recessão desde 1975

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Nas últimas semanas os argentinos começaram a assistir a uma enxurrada de más notícias sobre o péssimo desempenho da economia. O grande choque ocorreu há poucos dias, quando a Associação de Fabricantes de Automóveis da Argentina (Adefa) anunciou que a produção em dezembro havia caído 47% ante o mesmo mês de 2007. Um dia antes, havia sido a vez da Associação das Concessionárias (Acara), que anunciou uma queda de 19,8% nas vendas. A construção civil, uma das locomotivas da recuperação econômica entre 2003 e início de 2008, ao lado do setor automotivo, também exibiu uma debilidade não vista em meia década, ao cair 13,7% no último mês do ano. Nem o anúncio do megaplano de obras públicas do governo da presidente Cristina Kirchner foi suficiente para dissipar o pessimismo. Mais uma vez, a sexta em 34 anos, os argentinos estão mergulhando numa grave crise econômica. Nenhum outra economia da região apresenta essa trajetória de altos e baixos.Os sinais da nova crise são evidentes. Os grandes grupos empresariais anunciam suspensões de investimentos. O primeiro grande golpe foi, no fim de novembro, o adiamento de um investimento de US$ 500 milhões em Santa Fé, pela empresa brasileira Gerdau. O choque foi grande, pois o Brasil foi um dos poucos países a investir na Argentina durante a crise de 2001/2002.Outros golpes vieram em seguida. No início da semana passada, a Bolsa de Buenos Aires comunicou que 2008 terminou com perdas de 49,8%, índice jamais visto em sua história. Na quinta-feira, para evitar 1.300 demissões da empresa de autopeças Paraná Metal, o governo mediou um acordo que reduziu em 15% a 48% os salários dos empregados. Há poucos dias, conseguiu impedir a demissão de 400 operários da General Motors. Mas os analistas afirmam que chegará um momento em que o governo não conseguirá impedir as demissões.O mais recente baque, na sexta-feira, foi protagonizado pela Siderar, do Grupo Techint, o mais importante da Argentina. A empresa anunciou que, por causa "da grave crise internacional iniciada em meados de 2008", decidiu suspender os investimentos de US$ 588 milhões anunciados no início de 2005. Até então, a empresa já havia investido US$ 214 milhões. De acordo com a Fundação de Investigações Latino-Americanas (Fiel), o país entrará em recessão, com 1,7% de queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. Os estrangeiros também são pessimistas. O Banco Morgan Stanley calcula a queda em 2%. As primeiras estimativas indicam que em dezembro o PIB teria recuado 2% ante mesmo mês de 2007.Os economistas preveem que a recessão argentina será a pior entre os países da América do Sul. Esse cenário entra em choque com a recuperação econômica a partir de 2003, quando o "modelo kirchnerista" foi encarado por alguns setores como exemplo a ser seguido na região (calote da dívida pública, obras públicas e pressões sobre empresários para evitar alta de tarifas).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.