Argentinos temem efeito negativo de calote

Empresários e líderes da oposição acreditam que haverá restrição aocrédito e retração do PIB se país não pagar os credores na quarta-feira

ARIEL PALACIOS, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2014 | 02h04

BUENOS AIRES - O risco de calote do pagamento dos credores reestruturados da dívida pública argentina nos Estados Unidos gerou uma onda de preocupação em diversos setores empresariais argentinos, que temem que a recessão se prolongue, enquanto o acesso aos investimentos fique mais difícil.

Neste fim de semana, durante a inauguração da Exposição da Sociedade Rural, o presidente dessa entidade, Luis Miguel Etchevere, acusou o governo da presidente Cristina Kirchner de gerar "angústia" por um "calote que ninguém deseja".

Na plateia do evento anual mais importante do setor agropecuário argentino - âmbito no qual costumeiramente os ruralistas enviam recados políticos - aplaudiam representantes das associações empresariais e líderes de partidos da oposição.

Ao citar o calote, Etchevere referia-se à contagem regressiva para esta quarta-feira, 30 de julho, quando ocorre o segundo vencimento de uma parcela de US$ 539 milhões relativos a juros dos títulos da dívida a serem pagos nos Estados Unidos. A Argentina não pagou o primeiro vencimento, no dia 30 de junho, porque o juiz federal de Manhattan Thomas Griesa entende que o país não deve pagar exclusivamente os credores reestruturados, mas também os "holdouts" - denominação dos credores que não aceitaram as reestruturações da dívida feitas pelo governo Kirchner em 2005 e 2010. Os holdouts exigem o pagamento de 100% dos títulos: US$ 1,6 bilhão, incluindo juros.

O dilema é complexo. Se não fechar acordo com os holdouts, a Argentina não poderá pagar os reestruturados na quarta-feira. Mas se pagar os holdouts, os investidores reestruturados, que perderam até 63% do valor dos títulos, poderão reivindicar o pagamento integral, como fizeram os holdouts.

Crepúsculo. Etchevere, após afirmar que o governo Kirchner "está em seu crepúsculo", embora a gestão atual só termine daqui a 16 meses, sustentou que a lógica atual do governo não funciona. "É hora de testar algo novo", disse. Segundo o líder ruralista, "a mudança do rumo (político) é urgente". Etchevere definiu o período de governo do casal Kirchner, iniciado em 2003, de "a década depredada": "Depredaram os recursos da agricultura, as reservas energéticas e do Banco Central. De quebra, paira a sombra de um novo calote. A conta ficará para o (presidente) que virá depois".

Recessão. Ao longo do fim de semana, líderes da oposição criticaram um eventual calote. "Seria um retrocesso de dez anos", disse o deputado da oposição Sergio Massa, da Frente Renovadora, uma dissidência do peronismo. Massa lidera as pesquisas sobre os presidenciáveis para a eleição em 2015.

A deputada Laura Alonso, do partido Proposta Republicana (PRO), indicou que "parece que o governo tomou a decisão de não conseguir acordo algum. Se for isso mesmo, será a pior saída". O economista Daniel Artana, da Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (FIEL), sustenta que o calote provocaria queda do PIB, aumento do desemprego, alta do dólar e recessão.

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