Argentinos temem que Dilma desvalorize o real

Preocupação dos industriais é que uma eventual desvalorização da moeda aumente o superávit comercial que o Brasil possui com a Argentina

Ariel Palacios, correspondente de O Estado de S.Paulo,

31 de janeiro de 2011 | 09h36

A presidente Dilma Rousseff desembarcará nesta segunda-feira, 31, em Buenos Aires em meio a um clima de preocupação entre os empresários argentinos por uma eventual desvalorização do real. Nunca antes na história, a evolução da moeda brasileira havia concentrado tanto as atenções dos empresários e dos economistas na city financeira portenha. Motivos existem de sobra, já que os industriais em Buenos Aires temem que uma eventual desvalorização do real aumente o já substancial superávit comercial que o Brasil possui com a Argentina.

Em entrevista publicada ontem, 30, pelos jornais Clarín, La Nación e Página 12, Dilma afirmou que "ninguém no mundo pode afirmar" que a desvalorização do real não ocorrerá. "Nos últimos tempos conseguimos manter o dólar dentro de uma faixa de flutuação de 1,6 a 1,7 real. Isto é, não tivemos nenhuma espécie de derretimento. Mas ninguém pode dizer que garante isso (a não desvalorização)", disse, segundo o Clarín, com "um quê de ironia".

Segundo Dilma, "os organismos multilaterais devem discutir esta questão e os países desenvolvidos, assumir suas responsabilidades". "Se a apreciação do real estiver perto do fim, isso não será uma boa notícia para a Argentina", afirma o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica. "Caso o Banco Central do Brasil consiga encerrar 2011 com um tipo de câmbio perto de 1,80, o nível real com a Argentina terá sido desvalorizado em 10% em relação a 2010. Desta forma, as exportações brasileiras ficariam 30% mais competitivas no mercado argentino."

Por trás das preocupações em Buenos Aires está o superávit de US$ 4,09 bilhões que o Brasil teve em 2010 com a Argentina. O volume foi 172% superior ao superávit brasileiro com o mercado argentino em 2009. Por este motivo, os empresários esperam que a presidente Dilma Rousseff emita sinais durante sua visita à Buenos Aires de que não pretenderia modificar o atual câmbio.

A opinião de diversos economistas na city financeira portenha, entre eles o ex-vice-ministro da Economia Orlando Ferreres é a de que no caso do desvalorização no Brasil, a Argentina deveria imitá-lo: "O Brasil pretende levar o real a uma cotação de 2,40 com o dólar. Se a Argentina não seguir o mesmo caminho, seria um erro." O presidente da União Industrial Argentina (UIA), Héctor Méndez, considera que não existem chances de uma forte desvalorização do real. No entanto, indicou que "quando existe um governo novo a gente nunca sabe. O fato é que qualquer medida que afete o comércio bilateral nos preocuparia".

Méndez indicou que em 1999 a Argentina passou por um cenário complexo quando o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso desvalorizou o real. "Na época a Argentina não tomou medidas e pagamos isso caro. Não dá para brincar com isso...temos que ficar alertas."

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