Celso Junior/AE-4/9/2008
Celso Junior/AE-4/9/2008

Argumento do BC é posto em xeque

Apenas alta de commodities não explica inflação; em cinco dos últimos oito anos, índice que exclui alimentos subiu mais do que o IPCA

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2011 | 00h00

O Banco Central (BC), que se reuniu na semana passada para decidir o novo nível da taxa básica de juros (Selic), tem argumentado que a inflação brasileira está longe do centro da meta de 4,5% por causa de um choque internacional nos preços das commodities. É verdade que esses produtos têm subido fortemente. Mas uma observação atenta dos indicadores de inflação do País nos últimos anos põe em xeque o argumento do BC.

Em cinco dos últimos oito anos, uma medida do índice oficial de inflação do País (IPCA) que exclui o grupo alimentação (que mais sente os efeitos da alta global das commodities) subiu mais do que o indicador cheio. Em 2003, por exemplo, o IPCA total teve alta de 9,3%, ante 9,9% do índice que desconsidera a alimentação. Em 2009, os números foram de, respectivamente, 4,31% e 4,93%.

Isso mostra que (1) a inflação no Brasil tem sido sistematicamente elevada mesmo sem computar os alimentos e (2) que o grupo alimentação chegou até a amortecer a inflação geral. Portanto, o IPCA se descolou bastante da meta nos últimos meses não só por causa do choque das commodities, mas também por outras razões, algumas estruturais e outras conjunturais.

Para críticos da atuação recente do BC, há duas razões principais para a inflação ter fugido ao centro da meta (nos 12 meses encerrados em março, está em 6,3%): a autoridade monetária errou na estratégia de política monetária. Em outras palavras, demorou para elevar a Selic - ou a elevou menos do que deveria - ao longo de 2010.

A segunda razão passa pela estratégia do governo de querer controlar a taxa de câmbio. Até o início de abril, sempre que o dólar ameaçava ultrapassar R$ 1,60, o Ministério da Fazenda e/ou o Banco Central adotavam alguma medida para tentar conter a valorização do real. De lá para cá, a estratégia parece ter mudado, pois o dólar caiu abaixo de R$ 1,60 e o governo nada fez.

"Parece que o governo se convenceu de que, para trazer a inflação de volta para a meta, precisará de uma ajuda do câmbio", diz um economista de banco. O comportamento do dólar é chave, explica o analista, porque o Brasil é um grande exportador de commodities.

Sempre que esses produtos ficam mais caros, o real tende a valorizar porque os investidores antecipam a entrada de dinheiro por aqui em decorrência de maiores receitas com as exportações. Portanto, nos últimos anos, parte da alta das commodities lá fora foi amortecida pela valorização do real. Com o câmbio engessado, a disparada das commodities foi inteiramente repassada para os preços internos.

"O cenário é difícil, sem dúvida. Mas nós o escolhemos", afirmou o economista e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman. "Foi o BC que permitiu que a inflação escapasse, pela tentativa de segurar a taxa de câmbio e por se colocar atrás da curva (no jargão do mercado financeiro, demorar para reagir com as medidas de política monetária)."

A economista do Santander Tatiana Pinheiro faz duas ponderações. A primeira delas é que, entre 2003 e junho de 2010, um índice que sintetiza a evolução das commodities no mundo, o CRB, subiu 71,4% em dólares, mas caiu quase 15% em reais. De julho passado até março, avançou 37,2% em dólares e 24,3% em reais. É mais uma prova do fim do amortecedor cambial.

Tatiana também nota que a inflação de serviços no País, que mede a evolução de preços que não sofrem concorrência internacional (barbeiro, cabeleireiro, dentista, médico etc), tem subido sistematicamente acima da inflação geral. "Atualmente, a inflação de serviços está na casa de 8,5% ao ano. Nos últimos anos, esteve sempre entre 7% e 8%", observa. Segundo ela, esses dados claramente revelam o aquecimento da economia.

Nas contas de Schwartsman, a demanda total no Brasil (que inclui o consumo das famílias e os investimentos) cresce atualmente na casa de 6%. É um ritmo bem superior ao da expansão do Produto Interno Bruto (PIB), que oscila hoje entre 4% e 4,5%. "Só há uma maneira de o BC trazer a inflação de volta para o centro da meta: desacelerar a economia, de modo que cresça durante um período abaixo do potencial."

Convergência lenta

Para o economista e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, o nível do juro atual ainda não fez a economia brasileira "rodar" abaixo do PIB potencial.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.