Arminio e Gabrielli trocam farpas sobre a capitalização da Petrobrás

Para ex-presidente do BC, 'processo gerou mal-estar generalizado'; presidente da estatal ironiza atuação de fundo do qual Arminio era sócio 

Kelly Lima e Mônica Ciarelli , de O Estado de S.Paulo,

27 de outubro de 2010 | 10h01

RIO - O modelo utilizado na capitalização da Petrobrás expôs ontem avaliações divergentes do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e do presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli. "Não dá para tapar o sol com a peneira. Ficou, com certeza, um mal-estar generalizado", disse Arminio, em evento pela manhã, referindo-se ao modo como os investidores estrangeiros acompanharam a operação.

A resposta de Gabrielli, à tarde, em outro evento, foi furiosa. "Se a Gávea, que está sendo vendida ao JP Morgan, não comprou (as ações da Petrobrás), o problema é dela", rebateu, em alusão ao fundo Gávea Investimentos, do qual Arminio é sócio e que está sendo comprado pelo banco americano JP Morgan.  

 
Foto: Paulo Vitor/AE
 

A capitalização da Petrobrás, que movimentou US$ 70 bilhões, foi a maior operação do tipo no mundo. Um dos resultados do crescimento financeiro da empresa foi a redução da participação estrangeira, antes de 37,6%, para 31,4% no capital acionário da companhia.

Em entrevista ao Estado na semana passada, Gabrielli revelou que "surpreendentemente" poucos fundos soberanos participaram da operação marcada, segundo ele, por investidores do varejo (pessoa física) americano.

Arminio Fraga, que participou ontem do 11.º Congresso Internacional de Governança Corporativa, fez duras críticas à condução da capitalização. Em sua opinião, o fato de a operação ter envolvido diferentes agentes do governo e o modelo ter sido decidido quase somente pela União, como acionista majoritário, foi criticado pelos estrangeiros.

Flexibilização. "O investidor estrangeiro olha para o Brasil e pergunta: "Que é isso?"", comentou Arminio. O executivo, que já trabalhou com o megainvestidor americano George Soros, depois de sair do BC, fundou a gestora de recursos Gávea com grande volume aplicado por investidores estrangeiros. Em sua palestra, ele destacou ainda que, além da operação da Petrobrás, a atual "flexibilização" do governo em seu padrão contábil também é criticada por estrangeiros.

Gabrielli desqualificou a avaliação de Fraga. "Só quem pode falar pelos investidores estrangeiros são eles mesmos", disse no lançamento do Programa Petrobrás Ambiental, na sede da empresa, ao ser indagado sobre as críticas. "A Petrobrás realizou a maior capitalização da história e houve mais demanda do que oferta, o que demonstra o seu sucesso", disse o presidente da estatal.

FRENTE A FRENTE

Arminio Fraga

Ex-presidente do BC

"Não dá para tapar o sol com peneira. Ficou, com certeza, um mal-estar generalizado (entre os investidores estrangeiros que acompanharam o processo). O investidor estrangeiro olha para o Brasil e pergunta: O que é isso?"

José Sérgio Gabrielli

Presidente da Petrobrás

"Se a Gávea (fundo de Armínio), que está sendo vendida para o JP Morgan, não comprou (as ações da Petrobrás), o problema é dela. Só quem pode falar pelos investidores estrangeiros são eles mesmos" 

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