Divulgação / Governo do Estado de SP
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A lamentável adesão tardia de Meirelles

Nada contra o que foi feito, foi um sinal importante. Tenho, sim, contra a mentira à la Goebbels da herança maldita, pois, com sinais relativamente pequenos, a situação rapidamente voltou aos trilhos

Arminio Fraga*, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 04h00

Henrique Meirelles foi um competente presidente do Banco Central e ministro da Fazenda. Sua nova coluna é bem-vinda. Mas, infelizmente, ele estreou repetindo um erro grosseiro. Em coluna da jornalista Claudia Safatle na edição de 4 de março de 2022 do Valor, ele afirmou que o Brasil devia ao FMI US$ 30 bilhões e tinha U$ 15 bilhões de reservas cambiais. Em sua coluna de 11 de março, Safatle publicou uma correção, que reproduzo a seguir: “Os números corretos são: as reservas cambiais somavam US$ 38 bilhões no fim da gestão do então presidente Fernando Henrique Cardoso, cifra superior, portanto, ao empréstimo do FMI, de US$ 30 bilhões, dos quais o Banco Central havia sacado duas parcelas de US$ 6 bilhões. A primeira parcela foi sacada no segundo trimestre de 2002, e a segunda, no fim do mesmo ano. O restante da linha de crédito do Fundo Monetário ficou à disposição do governo do então presidente Lula, que assumiu no dia 1.º de janeiro de 2003”. Ele fala em reservas líquidas negativas de US$ 15 bilhões, quando o número verdadeiro era positivo em US$ 26 bilhões (38 menos os 12 sacados).

Meirelles fala também na elevação dos juros a 26,5%, o que de fato ocorreu. Mas omite que já estavam em 25%, o que levou o então coordenador da (caprichada) transição a brincar comigo que, assim, não sobrava nada para eles.

O mesmo vale para o saldo primário, superavitário desde 1999, e elevado em menos do que 1 ponto do PIB. Ele fala também em inflação a 17% nos 12 meses terminados em junho de 2003, mas omite a depreciação cambial de quase 100% provocada, em boa parte, pelo medo do que seria um governo do PT.

Nada contra o que foi feito, foi um sinal importante. Tenho, sim, contra a mentira à la Goebbels da herança maldita, pois, com sinais relativamente pequenos, a situação rapidamente voltou aos trilhos. A adesão tardia de Meirelles a essa tese é lamentável.

*EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL, ECONOMISTA

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