Vantoen Pereira Jr.
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Arnaldo Jabor foi voz contra a inflação desde o início

Jabor levou o debate sobre a inflação a um público enorme e ajudou na recepção do Plano Real

Gustavo H. B. Franco*, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 04h00

Arnaldo Jabor, o cronista, foi talvez a primeira voz, fora da economia, a afirmar que a inflação fazia mal à saúde do País. Parece banal, visto trinta anos depois, mas, no começo dos anos 1990, era puro vanguardismo.

O Brasil estava acomodado a um nível absurdo de inflação, e fingia que era bom ou, ao menos, útil. A correção monetária punha a todos em estado de absoluto torpor. Os médicos tinham de combater em três frentes: contra a doença, contra a falsa medicina (planos e teorias heterodoxas, o “antivax” da época) e contra a indolência do doente. 

Era muito solitário. 

Essa solidão dos médicos era um drama que o fascinava, e do nosso lado a sensação era reconfortante: alguém está reparando, e não era qualquer um, mas um dos grandes no campo da cultura. Jabor escreveu muito sobre isso, quase toda semana nos piores momentos. A hiperinflação era o que tínhamos mais próximo do cinema catástrofe, uma imagem que não lhe escapou. A diferença é que não era cinema, a catástrofe era cotidiana e concreta. 

Ao escrever sobre isso, Jabor, que não era do ramo, levou o assunto para um público enorme, o que certamente ajudou a recepção do Plano Real.

Em 28 de junho de 1994, três dias antes de a URV ser substituída pelo real, completando a bem-sucedida reforma monetária de 1994, Jabor publicou algo como um artigo-síntese: “O País não merece o plano real” era o título. “Não há solidão mais terrível do que ser da equipe econômica do governo”, ele dizia na partida, e a razão era simples: “Ninguém ajudou”. Congresso, economistas, igreja, burguesia, artistas, intelectuais, Judiciário, todo mundo preocupado com o seu pedaço da cracolândia.

Até hoje sobrevivem os memes sobre os petistas falando as maiores besteiras sobre o Plano Real, seus economistas fazendo as previsões mais idiotas.

Segundo Jabor, profeticamente, “a descrença nacional em qualquer sinceridade de propósitos também não ajudou. Nosso egoísmo descrê em qualquer interesse público. Nosso amor ao abstrato e horror ao concreto também não ajudaram. A nossa burrice congênita não ajudou o plano, já que desconfia da razão com tintas visíveis de um protofascismo rancoroso”. 

Depois que deu certo, a estabilidade virou unanimidade, destaque entre os valores da democracia, todo mundo ficou a favor, até os “antivax”. No Brasil, conforme um teorema atribuído a Tim Maia, proxenetas se apaixonam, os traficantes se viciam, os “antivax” tomam vacina e todo mundo é a favor do combate à inflação. Daqui em diante, infelizmente, não temos mais o Jabor para explicar essas nuances, só nos resta uma defesa institucional, a independência do Banco Central.

*Ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos

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