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‘Nossa igreja foi violada’, diz responsável por templo invadido pela PM

Comandante da Polícia Militar se reuniu com o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, e pediu desculpas; confronto durou mais de cinco horas nesta terça

Clarissa Thomé e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2016 | 11h17

Policiais militares entraram na Igreja São José, no Centro do Rio, por uma porta lateral, sob os apelos do sacristão para que não invadissem o templo, na tarde desta terça-feira, 6. Eles se dirigiram ao segundo andar, de onde passaram a disparar balas de borracha e bombas de efeito moral contra manifestantes que protestavam contra o pacote anticrise encaminhado pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) para votação na Assembleia Legislativa.

"Os policiais bateram à porta, por volta das 13h30. O sacristão entreabriu e perguntou o que eles queriam. E eles entraram, sem licença, apesar dos pedidos do sacristão de que ali era uma igreja e que não poderiam entrar. Eles agiram no calor da reação. A Igreja jamais permitiria, jamais faria nada contra a população. O que eles fizeram foi um desrespeito. Seria um desrespeito em qualquer casa, ainda mais na casa de Deus", afirmou o advogado Gary Bon-Ali, de 74 anos, provedor da Irmandade do Glorioso Patriarca São José, responsável pela administração da Igreja de São José.

Bon-Ali lembra que ali houve uma ermida, erguida em 1608. Essa pequena construção foi destruída durante a tentativa de invasão francesa, em 1710, conta o provedor. "Nossa igreja tem mais de 400 anos. Foi destruída pelos francesas. Essa foi a segunda invasão. Nossa igreja foi violada", lamentou.

Segundo o provedor, os funcionários da igreja estavam se preparando para deixar o local, porque o cheiro de gás estava muito forte, quando os PMs entraram. Eles se refugiaram na sala da sacristia, mais afastada da Rua Primeiro de Março, para se proteger. Os policiais ficaram ali por cerca de 30 minutos. "Acho que saíram porque acabou a munição", disse Bon-Ali.

O provedor participou de encontro com o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal d. Orani Tempesta, e o comandante da Polícia Militar, Wolney Dias Ferreira, na manhã desta quarta-feira, 7. "Ele foi muito educado e muito solícito para pedir desculpas em nome da PM. A invasão não foi uma ordem do comando, foi uma decisão de soldados ali no calor do ato. O comandante, inclusive, se comprometeu a pedir desculpas também ao sacristão", contou Bom-Ali.

Nesta quarta-feira, 7, a Igreja de São José foi mantida fechada.

A Arquidiocese do Rio repudiou nesta quarta-feira, 7, a invasão, nesta terça-feira, 6, da Igreja de São José, na região central do Rio, por policiais militares que investiam contra servidores que protestavam contra o pacote anticrise do governo do Estado. A igreja fica do lado da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), onde ocorria a votação do pacote, que os penaliza. "O recurso à violência nunca é solução. As efetivas soluções brotam da solidariedade, do diálogo e do sacrifício. Se grandes são os problemas, maiores devem ser nossa capacidade de incansavelmente dialogar, a força de nossa solidariedade e o cuidado para que os mais pobres não venham a ser ainda mais onerados com uma dose desproporcional de sacrifício", diz nota enviada nesta manhã pela Arquidiocese.

A instituição "reitera que a Igreja, como templo dedicado a Deus, é lugar privilegiado de encontro e acolhimento dos que sofrem e que ali procuram abrigo".

Batalha campal. Esta terça-feira foi o primeiro dia de votação, na Alerj, do pacote de medidas do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) para conter a crise financeira do Estado. O protesto do lado de fora teve contornos de batalha campal. O ato dos servidores foi coibido com truculência pela Polícia Militar, e o confronto se estendeu por ruas do centro, incluindo a Avenida Rio Branco, a mais importante da região, por abrigar órgãos públicos e muitos prédios comerciais e empresariais. 

Foram mais de cinco horas de embate, o mais longo da série de protestos, iniciada há um mês: a polícia atirando com balas de borracha e jogando gás lacrimogêneo e os manifestantes lançando pedras portuguesas, retiradas do calçamento, de volta.

O clima se acirrou a partir das 13h30, quando, do alto do carro de som, manifestantes disseram palavras de ordem pedindo a ocupação da casa - como aconteceu em ato do dia 8 de novembro. PMs reagiram com bombas de gás lacrimogêneo e depois usaram balas de borracha indiscriminadamente.

Associações de servidores identificaram a participação de black blocs no protesto de terça-feira. Representantes das entidades disseram que não incitam qualquer tipo de violência, mas ressalvaram que não têm condições de evitar o que classificaram como infiltração de mascarados. "O ato é público. A gente não consegue evitar isso quando a polícia começa a dispersar as pessoas de forma violenta. Nós não queremos esse tipo de enfrentamento. O que falta acontecer nessas manifestações? Só falta um óbito. É a nossa maior preocupação", disse o presidente da Associação dos Bombeiros do Estado do Rio, Misac Eflaim. 

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