Arquitetura corporativa com brilho

Uma estrutura de peças de Lego que ocupe 50 mil metros quadrados, custe mais de 1 bilhão de coroas dinamarquesas (US$ 150 milhões) e tenha um campo de minigolfe na cobertura. Na realidade, a nova sede global do Lego Group será construída com tijolos de verdade e concreto, mas seu CEO, Jorgen Vig Knudstorp, fala sobre o edifício com entusiasmo infantil. O lugar, que ficará na cidadezinha de Billund, no interior da Dinamarca – que também abriga a sede atual –, “terá instalações incríveis, sem ser opulento, com muita descontração e até espaço para crianças”. A “People House” servirá de emblema do sucesso da empresa.

O Estado de S.Paulo

23 Julho 2016 | 05h00

Knudstorp tem todo o direito de contar vantagem. Há oito anos consecutivos, o retorno anual sobre o capital investido da fabricante de brinquedos supera os 100%. Os lucros antes dos impostos chegaram a 28% no ano passado e as vendas vão de vento em popa. Depois de um primeiro momento difícil, a estratégia de “centrar o foco nos tijolinhos”, implementada pelo executivo, vem dando bons resultados.

A Warner Brothers produz e detém os direitos sobre os filmes Lego, que acabam promovendo a marca, e outras empresas administram as diversas Legolândias que há pelo mundo afora, permitindo que Knudstorp se concentre na tarefa de vender brinquedos. Após alguns anos recrutando pessoal, os 4 mil funcionários que a empresa tem na Dinamarca já não cabem na sede antiga.

Construir um edifício “maneiro”, com extensas áreas verdes internas, espaços abertos e escadarias pintadas de amarelo-ovo é um bom modo de festejar o sucesso. O projeto está repleto de características presentes em outras sedes corporativas construídas recentemente: mesas coletivas (“hot desks”), e não em estações de trabalho individuais; um átrio monumental e vidro a rodo, para sugerir uma cultura corporativa transparente, sem muita hierarquia; e o indefectível espaço para a prática de exercícios, além de uma série de detalhes ecológicos, com destaque para o consumo reduzido de energia elétrica.

Ponto de encontro. Para muitos, a descrição deve parecer familiar. No mês passado, Joe Kaeser, presidente e CEO da Siemens, inaugurou a nova sede da empresa em Munique, dizendo que ela será um lugar onde encontros acontecem.

A Airbus também acabou de cortar a fita de seu “Wings Campus”, nova sede da empresa em Toulouse, na França. Espera-se que o refeitório enorme, a academia de ginástica e o “espaço de trabalho colaborativo” ponham os funcionários para conversar entre si. O presidente da fabricante aeronáutica, Tom Enders, diz que o edifício mostra que a Airbus é uma empresa “inovadora, de mente aberta, com os olhos voltados para o futuro”.

Por sua vez, a fabricante de artigos esportivos Adidas está investindo mais de € 500 milhões (US$ 550 milhões) numa sede na pequena Herzogenaurach, no sul da Alemanha. A empresa garante que o projeto arquitetônico promoverá uma “interação espontânea” entre os funcionários.

Disputa de talentos. O que leva essas companhias tradicionais de grande porte a adotar um visual ágil e inovador é a cada vez mais acirrada disputa por novos talentos – uma competição em que elas têm de enfrentar, entre outros adversários, as formidáveis empresas de tecnologia.

Knudstorp teme que, com o envelhecimento da população europeia, a disponibilidade de designers, engenheiros de software e outros profissionais habilidosos no mercado de trabalho seja cada vez menor. E não vai ser oferecendo uma vaga numa salinha acanhada e sem janelas que as empresas conseguirão contratá-los.

Luka Mucic, diretor financeiro da SAP, maior desenvolvedora de softwares da Europa, nota uma mudança de atitude entre os recém-formados que chegam atualmente ao mercado de trabalho. Os jovens de hoje, diz ele, não se preocupam tanto com status e títulos como as gerações anteriores. O que interessa para eles é a “visão” da empresa e a existência de “um ambiente que lhes proporcione senso de escolha”.

Vale do Silício. Se as empresas mais tradicionais conseguirão realmente vencer a “batalha dos edifícios” são outros quinhentos. Calcula-se que a Apple esteja gastando US$ 5 bilhões em Cupertino, na Califórnia, para construir seu novo câmpus em formato de disco voador. Não muito longe dali, o Google pretende erguer uma sede tão futurista que um site a descreve como “uma utopia sob um dossel de teias de aranha”.

Para não ficar para trás, a Amazon está construindo, no centro de Seattle, edifícios esféricos, em cujo interior serão plantadas várias árvores, para que os funcionários possam fazer reuniões “na floresta”.

Como se vê, por mais atraente que seja o campo de minigolfe, vai ser difícil para empresas europeias com sedes em cidadezinhas perdidas no mapa, como Billund, na Dinamarca, ou Herzogenaurach, na Alemanha, ganhar essa parada.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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