Arrogância na diplomacia e no câmbio

De tempos em tempos, os cidadãos de um país precisam ser lembrados do quanto seus governos, ainda que democraticamente eleitos, se desviam dos valores fundamentais que definem o caráter nacional e afetam negativamente a imagem que o país constrói na opinião pública mundial. Em tempos pré-eleitorais, quando o pragmatismo do caminho para a vitória nas urnas domina de forma tão frequente outros valores, é útil olharmos a experiência de outros países para tirarmos algumas lições.

Dionísio Dias Carneiro, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

O senador James William Fulbright foi um ícone da política americana que chefiou o Comitê de Relações Exteriores do Senado americano entre 1959 e 1974. Tendo vivido o nascimento e o fracasso desastroso da ação americana no Sudeste Asiático, resumiu, em um livro intitulado A Arrogância do Poder, os aspectos que considerava importantes aos seus concidadãos levarem em conta ao decidirem, nas urnas, seu futuro.

Em sua época, a decisão crucial que dividia os americanos era o envolvimento crescente e finalmente sufocante dos EUA na Guerra do Vietnã. Sua análise dos pressupostos sobre a natureza da revolução comunista na China, que alimentavam o caráter preventivo da ação militar americana no Sudeste Asiático, é muito atual. Enxergou o que poucos viam em seu tempo: que a teoria do dominó era falha, que havia nações vizinhas que não cairiam "vítimas da expansão militar chinesa", como rezava a doutrina oficial, e que o próprio Vietnã, que por séculos teve de se defender dos chineses, provavelmente seria independente da China e teria relações normais com os EUA quando cessassem as hostilidades.

Nos tempos atuais, a diplomacia econômica americana continua a mostrar-se vesga diante dos desafios que a China representa para a economia internacional em todos os aspectos. Antes da crise atual, o diagnóstico era, ou etéreo (como o savings glut que Ben Bernanke entendia como "causa" dos desequilíbrios americanos, o que não faz jus à competência do presidente do Fed) ou se restringia a escaramuças de fabricantes de brinquedos ou de eletrônicos com relação aos quais os EUA (e outros países) perderam a competitividade, qualquer que seja o grau de desalinhamento cambial diagnosticado. Mais recentemente, as baterias foram assestadas contra a paridade yuan-dólar, cujo deslizamento foi interrompido pela crise financeira.

Que a manutenção da atual paridade do yuan faz pouco sentido econômico é consensual. Trata-se de um dos muitos aspectos dos desequilíbrios bilaterais dos balanços de pagamentos que conspiram contra a correção deles. Mas a insistência de que a paridade será rompida, como fruto de pressão americana sobre o governo chinês, como pregam Paul Krugman e outros, já beira o ridículo. Se algum efeito terá a ameaça, adiada por duas semanas, de classificar a China como currency manipulator, será o de dificultar a ação prática dos que dentro do governo chinês desejam retomar o deslizamento cambial e aumentar o papel do mercado na determinação da taxa de câmbio.

A taxa de câmbio real, o preço relativo que importa para a tomada de decisões econômicas, costuma desafiar a ilusão de poder dos governantes. Os mercados cambiais globais são altamente especulativos e transacionam mais de US$ 3 trilhões por dia, a maior parte sem relação com transações reais e mais dependente do humor dos mercados.

É natural que cresça a tentação de transformar a taxa de câmbio em objeto de decisão administrativa. Compras e vendas de reservas podem diminuir a volatilidade, mas determinar o câmbio real é tarefa inglória. Na atualidade brasileira, os únicos políticos que não cairão nessa armadilha são os que não a experimentarem. Mas o que esperar dos novos iludidos ao se instalarem no poder?

O senador Fulbright responde com esta pérola de sabedoria política: "O poder se confunde com a virtude e tende a se tomar por onipotência." Vale tanto para detentores como para aspirantes.

ECONOMISTA. É DIRETOR DA GALANTO CONSULTORIA E DO IEPE/CDG

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