Arrozeiros e prefeitos brigam por uso de água

Preocupados com estiagem, políticos do RS querem fim de bombeamento para plantação

Elder Ogliari, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h04

A disputa por um bem natural cada vez mais escasso, a água, colocou prefeitos e produtores rurais do Vale do Rio dos Sinos em rota de colisão neste início de verão. Preocupados com dificuldades de captação a cada estiagem, como a que estão enfrentando agora, administradores ligados à Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (AMVRS) e ao Consórcio Público de Saneamento Básico da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Pró-Sinos) passaram a defender o fim do bombeamento para as plantações de arroz na região.

Os agricultores ficariam com a opção de investir em reservatórios próprios, abastecidos pela chuva, ou migrar para outras culturas. Entidades ligadas ao agronegócio reagiram sugerindo que os municípios façam barragens para regular a vazão em época de enchentes e armazenar água para os períodos de seca.

O palco do confronto, ainda limitado aos debates, tem sido as reuniões e audiências em diversos órgãos públicos voltados ao problema da estiagem e também as entrevistas dos dois lados à imprensa. O tema será levado formalmente ao Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos), à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e à Fundação de Proteção Ambiental do Estado, avisa o presidente do Pró-Sinos, Ary Vanazzi, que também é prefeito de São Leopoldo. Se vingar, a proposta prevê que a captação para a lavoura seja reduzida 25% a cada ano, de 2012 a 2015, quando seria suspensa.

Pico de demanda. O grande problema na disputa de prefeitos e arrozeiros é que a lavoura é cultivada de outubro a fevereiro, período que coincide com boa parte do verão e, consequentemente, com o pico de demanda de água para o consumo humano. Os prefeitos usam dados do Departamento de Recursos Hídricos para sustentar que as lavouras são responsáveis por 60% do consumo desta época do ano, enquanto o abastecimento público fica com 26%.

Também observam que o plantio de arroz, feito por 47 produtores com outorga para retirar água dos rios, tornou-se uma atividade econômica secundária na maioria dos municípios da região. "Queremos resolver esse problema suspendendo a retirada de água da bacia para as lavouras", afirma Vanazzi, que admite, como alternativa, que os produtores peçam linhas de financiamento para açudes ao governo federal.

O presidente de Federação dos Arrozeiros do Estado (Federarroz), Renato Rocha, diz que o consumo atual das plantações corresponde à metade do que é informado pelos prefeitos graças a investimentos em tecnologia que reduziram a demanda por água. Também lembra que cada safra gera renda, por atividades diretas ou indiretas, a duas mil famílias. Ao mesmo tempo em que sustenta que os agricultores fizeram sua parte, investindo em melhorias, os prefeitos ainda não enfrentaram um problema ainda maior, o da poluição, e sugere que eles trabalhem para construir grandes barragens no percurso do rio. "A solução não é procurar culpados, mas um plano de investimentos para reservar água do período de abundância", diz, destacando que o volume de chuva na bacia chega a 1,8 mil milímetros por ano.

Barragens. A construção de barragens no Sinos foi objeto de estudo feito pela Magna Engenharia para o governo do Estado há dois anos. O custo de quatro represas foi estimado em R$ 800 milhões, num cálculo que não considerou despesas como indenizações. "Isso é muito elevado para quem tem muitas outras urgências", afirma Vanazzi, que destaca os investimentos de R$ 900 milhões em obras de saneamento que São Leopoldo e municípios vizinhos estão fazendo. Técnicos ligados ao assunto também admitem que as represas enfrentariam resistências de comunidades, formadas por pequenos produtores, que não gostariam de ver suas áreas alagadas.

Outra hipótese, sugerida nos anos 80 e recolocada em discussão por Adejalmo Gazen, diretor da Magna Engenharia, seria a construção de um conduto forçado para levar água do rio Jacuí para São Leopoldo e Novo Hamburgo. Rocha entende que as partes envolvidas deveriam buscar apoio financeiro do governo federal para uma solução que resolva o problema definitivamente.

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