EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO
 O ex-presidente do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira,posa com sua coleção de fotos em 2004  EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO

Arte arrecadou 5 vezes mais que mansão de Edemar Cid Ferreira

Imóvel foi adquirido por R$ 27 milhões pelo empresário do ramo educacional Janguiê Diniz; prédio vai ser transformado em uma escola e ajudou a inflar a arrecadação imobiliária da massa falida do Banco Santos para mais de R$ 70 milhões

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

Investir em obras de arte é caro, exige tempo, paciência e não é para todo mundo – mas, em alguns casos, pode dar resultado. A grande coleção de arte do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do finado Banco Santos, por exemplo, mostrou-se muito valiosa e ajudou a garantir pagamentos a credores da instituição financeira, que teve a liquidação determinada pelo Banco Central em 2013. 

Conhecido pelo estilo nababesco e por grandes festas, Edemar Cid Ferreira tinha um patrimônio pessoal que incluía todo o tipo de luxos. O mais evidente era a mansão no bairro do Morumbi, que foi alvo de curiosidade e escrutínio desde que ele deixou o imóvel, em 2010. No entanto, as obras de arte que ele angariou ao longo do tempo, e que foram confiscadas tanto no Brasil quanto no exterior, trouxeram bem mais recursos à massa falida do que a construção gigante com vista para o Jockey Club de São Paulo.

Depois de vários leilões fracassados, a casa chegou a ser vendida por menos de R$ 10 milhões, mas a Justiça decidiu refazer o evento quando surgiu um interessado de última hora. No início de 2020, o imóvel foi adquirido, por R$ 27 milhões, pelo empresário do ramo educacional Janguiê Diniz. O prédio vai ser transformado em uma escola e ajudou a inflar a arrecadação imobiliária da massa falida do Banco Santos para mais de R$ 70 milhões.

No entanto, as duas cifras são pálidas em comparação à arrecadação com as obras de arte do ex-banqueiro. O total trazido com quadros, esculturas, fotografias e esboços de artistas famosos, quando se contam os R$ 25 milhões do mais recente leilão de obras ligadas ao Banco Santos, chega a R$ 151 milhões. É mais do que o dobro do que o angariado com imóveis e mais de cinco vezes o valor de venda da mansão de 4,5 mil m².

Leilão ‘show’

O leiloeiro James Lisboa, responsável pela venda do último grande lote de obras de Edemar Cid Ferreira, resolveu transformar um evento em um verdadeiro show. Ele comprou espaços no canal por assinatura Arte 1, que pertence ao Grupo Bandeirantes, para ampliar o acesso de interessados em arte às obras. No fim de setembro, quando as obras mais disputadas foram oferecidas, a transmissão durou três horas. O total arrecadado foi mais do que o triplo do inicialmente esperado, segundo o leiloeiro. 

“Todos os lotes tiveram disputa”, disse Lisboa, lembrando que as três horas foram insuficientes. Para cobrir todos os 149 lotes, que incluíram peças de Cildo Meirelles, Tarsila do Amaral e Tunga, ele trabalhou das 20h à 1h da manhã. A obra mais cara da noite – The Founding #6, do americano Frank Stella – foi vendida por R$ 4,2 milhões. Segundo o leiloeiro, o valor só não foi maior porque a peça trazia desafios logísticos. “É um quadro de 4,5 metros por 16 metros. E muita gente teria de fazer reformas para exibi-lo. Porque, no fim das contas, todo mundo que compra quer mostrar.”

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É possível encarar uma obra de arte só como investimento?

Leilão de obras do Banco Santos foi um êxito e chamou atenção para esse mercado, que é arriscado e só funciona no longuíssimo prazo

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

No fim de setembro, o leilão de um lote de obras do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do falido Banco Santos, chamou a atenção: televisionado, o evento mostrava o leiloeiro James Lisboa tendo dificuldade em bater o martelo. Obras de grandes nomes da arte brasileira e internacional recebiam lances cada vez mais altos: o certame, que projetava arrecadar R$ 7 milhões, atingiu R$ 25 milhões. E levantou uma lebre para quem, em tempos de juros baixíssimos na renda fixa, está em busca de uma melhor aplicação. Segundo o Estadão apurou, porém, pensar em arte apenas como forma de multiplicar patrimônio pode ser bastante arriscado.

Um dos maiores especialistas no assunto, Heitor Reis ajudou o banco Brasil Plural a montar o primeiro fundo de investimento em arte, que chegou a reunir 700 obras de 200 artistas brasileiros. Embora considere quadros, esculturas e fotografias um potencial bom investimento, Reis alerta: “Arte não deve ser o principal investimento de ninguém. Primeiro você compra sua casinha, faz sua poupança e depois pensa nisso.”

Embora seja recomendável fazer uma boa pesquisa sobre o artista em que se pretende investir, colecionadores consultados pelo Estadão alertam que não há garantias. O executivo José Olympio Pereira, presidente do banco Credit Suisse, que coleciona arte há 30 anos e preside a Bienal de São Paulo, diz que nada garante a valorização de um artista. “Se você fizer um estudo econômico, não acho que se possa relacionar, por exemplo, a compra de uma obra por um museu à valorização daquele artista no mercado.”

Como o retorno é incerto, vale uma máxima que também se aplica a outros investimentos: a diversificação. Como é muito difícil prever se um artista vai “explodir” no mercado, Pereira conta ter construído uma coleção ampla e eclética. Ou seja: nada de comprar toda a obra de um artista. “Sempre comprei arte por paixão. E, ao longo desses 30 anos que eu compro arte, teve coisas que se valorizaram e outras que não, que eu dou de presente.”

Quem não gosta de arte e investe na área pode acabar tendo de lidar com o gosto amargo do fracasso, todos os dias, bem no meio da sala de estar. “Se você comprar arte só por investimento, ela pode deixar de ser uma fonte de prazer e passar a ser um aborrecimento à medida que não performar”, diz o presidente da Bienal. Na visão de Reis, o melhor caminho é adquirir as obras por gosto estético e deixar que a vantagem econômica venha eventualmente – mas sem contar com ela. “Quem compra por prazer tem bem menos chance de errar.”

Cuidados

Mas é evidente que, como em outros segmentos, como ações ou imóveis, há opções mais seguras e apostas mais arrojadas. E, a exemplo do que ocorre com esses outros investimentos, tudo depende do capital que se tem a investir e do risco que se está disposto a correr. Quanto o assunto é arte, a clara vantagem está de quem tem patrimônio para assinar cheques mais altos.

Isso porque o investimento em autores consagrados – que exigem desembolsos de centenas de milhões ou de milhões de reais – são apostas mais seguras. Ter um Di Cavalcanti, uma Tarsila do Amaral ou um Portinari na parede é uma garantia de que o investimento (quase) certamente não vai desvalorizar. O mesmo raciocínio vale para artistas contemporâneos que já tiveram uma explosão de preço, como Adriana Varejão ou Vik Muniz.

Responsável pelo leilão milionário das obras de Edemar Cid Ferreira – que arrecadou recursos para pagar os credores do Banco Santos –, o leiloeiro James Lisboa ressalva que, mesmo quando se fala de nomes consagrados, também é necessário algum conhecimento técnico sobre o tema. “Nem toda a obra de um artista vai ter a mesma valorização. O artista é um operário, precisa criar para sobreviver. Então é preciso ter em mente que a qualidade da obra varia de peça para peça.”

Para quem não é grande colecionador e não tem milhões para montar uma coleção extensa, o jeito é apostar em artistas que ainda não tiveram saltos de preço. “A maior parte do mercado de arte não está nos leilões conhecidos, mas em artistas cujo preço das obras hoje varia de R$ 10 mil a R$ 25 mil”, explica Lisboa. A resposta sobre a valorização da obra pode vir só em uma, duas ou até três décadas. Por isso, Lisboa reforça o conselho: “Compre o que te dá prazer.”

 

Três perguntas para: 

José Olympio Pereira, presidente da Bienal de SP

  • Qual é a recomendação para se investir em arte?

    Sempre comprei arte por paixão, faço isso há cerca de 30 anos. Ao longo do tempo, ela se tornou um investimento. Mas eu recomendo que as pessoas estudem e usufruam do processo de pesquisar uma obra de arte, que é quase tão prazeroso quanto a compra em si. Não precisa ir com sede ao pote, sair comprando. É algo bom de se estudar, ver, conhecer. 

  • Há alguma vantagem em se comprar arte, em relação a outros bens?

    Sim. Diferentemente de se comprar um carro bacana, um barco ou um avião – essas coisas e que as pessoas investem por prazer, mas que sempre vão valer menos –, a arte é algo de que você desfruta e que corre o risco de se valorizar. Se alguém vai comprar uma peça de grife, não vai pensar se vai valorizar ou não. É mais ou menos assim que encaro a compra de arte.
  • Então, pensar a arte como investimento puro não é a melhor ideia?

    Dou palestras sobre o tema e digo que, se você comprar arte só por investimento, ela pode deixar de ser uma fonte de prazer e passar a ser um aborrecimento à medida que não performar. É como ter pendurada na parede uma ação que se desvalorizou. 

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