Artigo: Moedas despencam nas economias asiáticas

Muito do dinheiro liberado pelo Fed acabou nesses países; com a iminência do fim desse ciclo, investidores tiram capital dos emergentes

Wieland Wagner, Der Spiegel - O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h10

Agentes aduaneiros indianos estão atuando febrilmente nos últimos dias na tentativa de sustar a importação ilegal de ouro. No aeroporto de Kochi, no sul do país, agentes apanharam recentemente um homem que trazia dois quilos de metais preciosos escondidos na meia - ele foi traído pelo andar desajeitado. Outros agentes aduaneiros na fronteira com o Nepal pararam um caminhão com 35 quilogramas de ouro escondidos no para-choque.

O governo aumentou o imposto sobre as importações de ouro para sustentar a moeda do país, mas isso só tem acelerado a fuga de investidores cautelosos. Novas medidas para desacelerar a queda da rupia são adotadas quase todo dia. Nada disso ajudou. Desde maio, a rupia perdeu 17% do seu valor ante o dólar.

Há dois motivos principais para isso. O primeiro é que os investidores perderam a fé no milagre econômico indiano e nos políticos indianos. O crescimento caiu quase pela metade, a balança comercial do país continua descambando cada vez mais para o vermelho, os preços das ações estão praticamente em queda livre e a inflação aprofunda a divisão entre ricos e pobres.

O segundo motivo, porém, é algo sobre o qual as autoridades em Nova Délhi têm pouco controle: o iminente fim da abundância de crédito nos Estados Unidos.

Fim do "dinheiro quente" americano? Boa parte do dinheiro que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) liberou no mercado para estimular a economia acabou chegando à Índia e a outros mercados emergentes, onde provocou uma elevação nos preços de ações e imóveis.

Em maio, o presidente do Fed, Ben Bernanke, insinuou uma mudança de rumo. Desde então, investidores têm especulado sobre o iminente fim do afrouxamento quantitativo - um programa estratégico que os americanos adotaram na tentativa de baixar as taxas de juros e aumentar os preços nos EUA - e retirado cada vez mais seu dinheiro de mercados emergentes.

Hoje, o valor da moeda está caindo em muitos países que antes se beneficiavam do capital estrangeiro, como Brasil, Rússia e África do Sul, mas em nenhum lugar o fenômeno é tão extremo como na Índia.

Até recentemente, os países mencionados em grupo como Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - eram vistos como vencedores na crise financeira de 2008. Economistas chegaram a prever que esses países seriam capazes de se "desacoplar" economicamente da Europa e dos EUA assolados pela crise. Em vez disso, esses países agora estão tremendo ante a perspectiva do fim do fluxo do chamado "dinheiro quente" dos EUA.

É fato que o país mais forte dos Brics, a China, não é diretamente afetada pela crise cambial em curso, pois o yuan não é livremente conversível - isto é, não pode ser convertido imediatamente em moedas de reservas importantes. Mas os governantes comunistas do país estão às voltas com sua própria crise bancária e uma urgente e necessária reorientação da indústria chinesa para privilegiar o consumo doméstico.

PRESO ENTRE DOIS GIGANTES

À medida que a economia chinesa enfraquece, suas importações de matérias-primas de outros países recém-industrializados também diminuem, o que significa que os vizinhos da China do Sudeste Asiático em particular estão sofrendo em dois fronts. Indonésia, Malásia e Tailândia não só estão exportando menos para a China, como também são obrigados a assistir à fuga em massa de investidores da rupia indonésia, do ringgit malaio e do baht tailandês.

Prasarn Trairatvorakul, presidente do Banco Central da Tailândia, tentou em vão acalmar os mercados. A situação econômica geral "ainda está boa", ele declarou. O governador do Banco Central da Indonésia, Agus Martowardojo, também depreciou a gravidade da situação, dizendo: "Os piores tempos da evasão de capitais em junho e julho já passaram". Entretanto, especialistas financeiros têm dúvidas sobre a capacidade do governo indonésio de combater efetivamente a crise.

Uma repetição do crash de 1997? Tudo isso traz algumas lembranças desagradáveis: são precisamente os chamados "tigres econômicos" que, após um período de crescimento artificialmente inflado, desencadearam a crise financeira asiática de 1997. Esse debacle começou na Tailândia, onde uma classe média recém-enriquecida construía arranha-céus e mansões e comprava carros de luxo, tudo a crédito. Quando essa bolha se tornou visível, fundos de hedge em Londres e Nova York começaram a especular num crash do baht.

A Tailândia havia atrelado sua moeda ao dólar americano. Para manter a taxa de câmbio e se defender de ataques de especuladores, o país introduziu quase todas suas reservas em moedas estrangeiras no mercado num curtíssimo espaço de tempo. Por fim, o banco central do país teve de capitular para os fundos de hegde. A Tailândia abandonou seu atrelamento ao dólar e o valor do baht despencou. As dívidas do país também aumentaram porque a maioria dos empréstimos havia sido contraída em dólar.

Em seguida, os problemas atingiram alguns bancos da Malásia e da Indonésia, onde multidões enfurecidas saquearam lojas de negociantes chineses. A ditadura de Suharto desmoronou logo em seguida. A Coreia do Sul também escapou por pouco da bancarrota nacional graças a um empréstimo de US$ 58 bilhões do Fundo Monetário Internacional.

Desta vez, os países recém-industrializados estão mais bem preparados para a fuga de capitais. Eles aumentaram suas reservas em moedas estrangeiras e reformaram parcialmente seus setores bancários. E o que é mais importante, suas moedas não estão mais atreladas ao dólar americano.

FRÁGEIS BRICS

Mas a fuga de capitais que está ocorrendo também ilustra o quanto os países do Brics e os tigres asiáticos estão longe dos países industrializados ocidentais - e em que grau as conquistas desses países estão ameaçadas. Segundo analistas do Morgan Stanley, os bancos centrais de países em desenvolvimento, com exceção da China, perderam US$ 81 bilhões entre maio e julho apenas com a venda de dólares para proteger suas moedas.

Esses países em desenvolvimento estão numa situação complicada. Para reduzir a fuga de capitais, eles precisariam elevar consideravelmente as taxas de juros, mas com isso causariam uma paralisação da economia. O economista indiano Jayati Ghosh adverte que isso provocaria agitações sociais. Os governos da Índia e da Indonésia estão particularmente receosos de causar um cenário de pesadelo como esse: essas duas grandes democracias terão eleições no próximo ano.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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