Tiago Queiroz/Estadão - 13/1/2022
Tiago Queiroz/Estadão - 13/1/2022
Imagem Laura Karpuska
Colunista
Laura Karpuska
Economista
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Artigo mostra que, ao reconhecer uma discórdia, pessoas passam a concordar

Mas o que pode ser feito para melhorar o diálogo entre nós e aqueles que não acreditam na vacina, na mídia e na ciência?

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 04h00

Em 1976, o grande matemático e teorista de jogos Bob Aumann escreveu o que eu acho ser um dos melhores artigos em economia: Agreeing to disagree, ou Concordando em Discordar, na sua versão em português que dá título a esta coluna.

No artigo, o matemático diz que o próprio reconhecimento da discórdia faria com que as pessoas passassem a concordar. Dou um exemplo. Dentro de uma sala existe um chapéu que pode ser azul ou rosa. Não sabemos com certeza qual sua cor. Eu e você, leitor, queremos saber a cor desse chapéu. Você recebe um bilhete que diz que é rosa e eu, que é azul. Após estes bilhetes, passamos a divergir a respeito da nossa opinião sobre qual é a cor chapéu. Mas, se nós dois nos encontrarmos e falarmos um para o outro nossa opinião, ficará evidente que um de nós estará errado. Convergiríamos, então, para uma opinião única.

A nossa opinião sobre a qualidade de um governante é mais complexa do que meu exemplo dos chapéus. Mas, se o fato de alguém discordar de mim não me faz duvidar da minha própria opinião, isso é um sinal de que podemos estar ignorando informações importantes para moldar nosso conhecimento.

As razões para essa ignorância seriam muitas. Pode ser que não confiemos uns nos outros ou na nossa fonte de informações – quem foi que nos passou aquele bilhete? Pode ser também o oposto. Eu posso não saber que a informação que recebi é de uma fonte com motivações escusas, que a tornam viesada.

Seja qual for o causador da discórdia, o fato é que hoje ela é presente. E ela é presente em questões objetivas que seriam perfeitas para que o exercício proposto por Aumann valesse. Ao longo da pandemia tivemos muitos exemplos disso, como o uso de cloroquina no tratamento da doença ou a eficácia e segurança da vacina.

As vacinas são testadas cientificamente. Sabemos de sua eficácia e de seus possíveis efeitos colaterais, bem como a frequência desses eventos. No entanto, existem pessoas que não acreditam na vacina.

Tenho um colega que não se vacinou. Embora eu tente incentivá-lo e escutá-lo, acolhendo seus motivos - falhando sempre enormemente, ele não muda de opinião. Ele acha que comer alho todos os dias já resolve o problema - afinal, ele está vivo até hoje.

O mais curioso nessa história é que meu colega não duvida da informação de que ele recebeu sobre a eficácia do alho como tratamento contra a covid-19. Mas ele duvida de todo o restante - mídia, cientistas, colegas e amigos. O que pode ser feito para melhorar o diálogo entre nós? 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.