'AS AMBIÇÕES ERAM CADA VEZ MAIORES'

Asgeir Jonsson era o retrato da nova Islândia. Vinha de um povoado do norte da ilha, havia trabalhado em um barco pesqueiro por um ano quando jovem, trazia uma barba ruiva típica dos antepassados do Ártico, mas também era um brilhante economista. Jonsson era o economista-chefe do maior banco do país, o Kaupthing, dando entrevistas e aparecendo na TV para mostrar que o banco ganhava o mundo e a situação da Islândia era impecável. Seu banco acabaria levando o país à falência.

REYKJAVIK , O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h12

Hoje, admite que chegou a ser agredido nas ruas e acusado de ter mentido. Mas nega que tenha sido um plano deliberado para quebrar o país. Em entrevista ao Estado, reconheceu os erros e admitiu que talvez não tenha feito os alertas adequados quando via que a atitude do banco era arriscada. Jonsson é hoje professor da Universidade de Reykjavik e é acusado de cinismo. Ainda assim, publicou um livro que conta parte dos bastidores da crise - ironicamente jamais traduzido para o islandês. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quando o sr. viu que algo poderia dar errado?

No inicio de 2008 já se podia ver que estávamos indo para uma situação crítica.

Mas o sr. não avisou o resto do banco?

Sim. Mas acho que eu deveria ter avisado de forma mais insistente. Sabe, há também um fator humano importante. Por anos, íamos muito bem. Jovens que nunca tinham ganhado dinheiro estavam fazendo fortunas. O país se abria e todos nos elogiavam. As ambições eram cada vez maiores.

Como um país de 300 mil pessoas chegou a ser tão atrativo?

Houve uma corrida de capital. Quando ganhamos o rating AAA, o dinheiro inundou o país. No fundo, tudo começou nos anos 90, quando o preço do bacalhau despencou e fomos forçados a abrir nossa economia, reformar tudo e nos abrir para o mundo. O setor da pesca passou a ser lucrativo e o Estado vendeu empresas. A privatização incluiu os bancos e deu resultados. Os bancos alemães vieram e nos emprestaram muito dinheiro. O Estado, nesse período, conseguiu pagar todas suas dívidas. Mas, como todas as economias baseadas em recursos naturais, éramos vulneráveis e os bancos decidiram que, para ter maior estabilidade, seria importante se expandir até mesmo no exterior. Entramos num ciclo virtuoso.

O sr. se arrepende de algo?

Eu tinha 33 anos quando me tornei economista-chefe. Talvez deveria assumir a posição agora que tenho 43 anos.

A Islândia usou a Justiça para julgar os responsáveis pela crise. O sr. ou seu grupo se consideram criminosos?

Não. Queríamos fazer do país um centro financeiro internacional. Queríamos nos abrir ao mundo. O erro foi que muitos achavam que aquela trajetória de sucesso não teria limite. É verdade que as leis foram contornadas, mas não houve crime.

Por que vocês quebraram e outros países não?

Se a Irlanda não tivesse sido resgatada, teria ocorrido o mesmo que nós. Também teria sido o caso de Portugal, Grécia e Espanha. A realidade é que nossos bancos eram grandes demais para o tamanho do país.

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