As ameaças ao crescimento

Em artigo recente (http://www.raulvelloso.com.br/index.php?secao=18&inicio=0&id=130#.Ux7vg9yG_ao) mostrei como a lógica do modelo de sustentação do consumo em vigor, ao contrário do que o governo espera, conduz, após algum tempo de sua aplicação sistemática, a crescimento baixo do PIB e ao encolhimento do peso da indústria na economia.

RAUL VELLOSO, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2014 | 02h08

De tanto o País consumir, uma hora faltará poupança para crescer mais. Neste momento, a inflação sobe e o governo é obrigado a cortar a demanda agregada para trazê-la de volta à meta. Percebendo que o crescimento do consumo não é sustentável, os investidores se retraem.

As amplas possibilidades de absorver poupança externa que existem hoje permitem aliviar a restrição de poupança até o limite das possibilidades de financiamento de déficits externos de igual magnitude, mas somente à custa do encolhimento do peso da indústria. Este último decorre da inevitabilidade de ter de criar um déficit externo no setor menos competitivo da economia, para a poupança de fora poder ingressar e se materializar, ainda que ela se dirija a outros segmentos.

Tudo o mais constante, não há como fugir da receita de cortar gastos públicos correntes e, assim, aumentar a taxa de poupança pública, para viabilizar um maior aumento do investimento e, portanto, do PIB. Ou seja, uma hora o modelo terá de ser invertido. De pró-consumo terá de passar a pró-poupança. Esta, no caso, terá de ser a pública, pois é a que está mais ao alcance da mão governamental.

O problema é que tudo o mais conspira contra o aumento do investimento e da poupança pública. Pressionado pelos setores prejudicados e porque afirma querer uma indústria forte e majoritária, o governo passou a definir várias políticas de proteção setorial, para se contrapor às tendências mais amplas do modelo econômico em vigor. Tais medidas acabaram assumindo nítido cunho populista, na sua grande maioria envolvendo vultosos subsídios governamentais, e até agora tiveram quase nenhum efeito favorável nos investimentos, em geral, e na produção industrial, em particular.

Na verdade, vêm produzindo pelo menos três resultados ruins: a destruição do frágil equilíbrio fiscal herdado da fase precedente; o risco de crescente afastamento do investidor privado das oportunidades locais, especialmente no setor de serviços, em face de quebras veladas de contratos e de rentabilidades pouco competitivas comparativamente a outras hipóteses fora do País; e o uso crescente de controles de preços básicos, como energia elétrica, petróleo e tarifas de transportes, para contrabalançar os efeitos da depreciação do real sobre os preços, que começou forçada pelo governo e depois virou reação de mercado à perda de credibilidade fiscal.

No primeiro caso, além de deixar a situação fiscal de curto prazo piorar, o que pode levar à perda do "grau de investimento" na classificação das agências de risco, o governo está fechando os olhos para um problema ainda mais complicado, que tenderá a jogar por terra um dos pilares de impulsão do modelo pró-consumo: o aumento dos gastos públicos correntes.

Refiro-me especialmente ao item "transferências de assistência e previdência", que vem crescendo aceleradamente e abocanhou em 2012 cerca de 60% do Orçamento federal. Projetei com colegas em estudo de 14/5/2013 (http://www.raulvelloso.com.br/index.php?secao=18&inicio=39&id=83#.Ux7w5tyG_ao) que o gasto desse ano tende a crescer o dobro do PIB até 2040, partindo da expressiva cifra de 11% do PIB. Isso se deve ao envelhecimento rápido da população, como prevê o IBGE, e à regra de corrigir o salário mínimo pelo próprio crescimento do PIB, ou seja, acima da produtividade média da economia. Como esse resultado é explosivo, algo relevante terá de ser reformado em breve, sob pena de a hiperinflação ou a explosão da carga tributária, que já é uma das mais altas para países de dimensão econômica similar, assumirem a tarefa. Algum governo à frente terá de liderar o processo de mudança. Ainda que seja só para evitar o pior.

É CONSULTOR ECONÔMICO

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