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As apostas entre o BC e o mercado estão na mesa

Como dizem os croupiers nos países onde cassinos e roletas são permitidos: "O jogo está aberto, senhores, façam suas apostas".

Marco Antonio Rocha, jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2011 | 03h05

No Brasil, jogos de azar em geral são ilegais, principalmente quando bancados por particulares, e não pelo governo. Menos no mercado financeiro, de ações, ou "de futuros"... Nesse cassino, neste momento, a mesma frase pode ser usada pelos seus diversos croupiers. E de que espécie de jogo estamos falando? Ou, melhor, o que é que está sendo jogado?

Um bom palpite é que está sendo jogada a credibilidade do Banco Central (BC) e do seu Comitê de Política Monetária (Copom), contra a de muitos analistas daqueles mercados, em torno da marcha da inflação.

O Banco Central fez mais um lance na semana passada, quando baixou a Selic em 0,5 ponto de porcentagem. E, com isso, em que é que ele está apostando? Aposta em estimular a atividade econômica, nesta fase em que o governo se mostra preocupado com a retração das atividades em quase todo o mundo rico, e que isso possa vir a deprimir a atividade aqui dentro, reduzir ainda mais o ritmo de evolução do PIB - que já está caindo -, derrubar a criação de empregos e até gerar desemprego.

Esses temores são compreensíveis à luz da filosofia ou estratégia de um governo que desde os tempos do Lula pôs os seus bids numa economia da procura (demand side economics), ao contrário daquela que ganhou fama com o governo Reagan, nos EUA, que era a sua suply side economics, ou economia de oferta.

O ex-presidente americano acreditava e proclamava que a "oferta cria a demanda". Então, se o país investe em novas fábricas, novos produtos, novos processos produtivos, etc., aumentando a oferta de tudo, principalmente com coisas novas, a demanda para isso aparecerá e, assim, a economia passa a girar num patamar mais elevado de atividade.

Se isso dá certo ou não, o mundo não teve grande oportunidade de avaliar, porque, depois de Reagan, o governo americano meteu-se em tantas operações militares que a demanda bélica funcionou em boa parte como locomotiva da economia - embora tenha ajudado também a anabolizar os imensos déficits interno e externo que assombram Obama nos dias de hoje (mas isso é outra história).

O fato é que Lula enveredou por outro caminho, o de que a economia cresce com estímulos ao aumento do consumo: aumentos de salários, aumentos do crédito, programas sociais de transferência de renda, programa habitacional, enfim, dinheiro para o povo pegar e gastar.

O povo pegou, gastou e ainda continua gastando. A tese de que o consumo "puxa" a oferta parece confirmada. A economia cresceu, o emprego cresceu, as vendas aumentaram, os lucros do comércio, da indústria e, principalmente, dos bancos foram para as alturas, o governo arrecadou mais e todo mundo ficou feliz - especialmente o próprio Lula, cujas bochechas sorridentes continuam aparecendo todos os dias nos jornais e TVs. Sem falar que ele elegeu um "poste", como se diz na gíria política.

O Banco Central atual acredita na possibilidade de, ao mesmo tempo, de olho na inflação, ajudar a manter essa política e evitar que uma recessão se abata sobre o País.

Porém, a aposta de uma boa parte do mercado é diferente. Em primeiro lugar, aponta a dificuldade técnica de encontrar a medida certa: qual dosagem de política monetária seria a mais indicada para manter um bom ritmo de crescimento sem suscitar um descontrole perverso da inflação?

Não há resposta pronta nem receita aviada. É no olhômetro que se decide, por mais que a imprensa embarque na cantilena de que o BC dispõe de uma equipe técnica campeã do mundo, capaz de monitorar os rumos da inflação brasileira mesmo se estivesse no planeta Marte. E que, além disso, dispõe de informações misteriosas que ninguém no mercado tem. Pura bobagem.

Por isso, é bom levar a sério algumas apostas do mercado (embora indesejáveis). Primeira, de que o BC está assumindo riscos não tão bem calculados como ele pensa. Segunda, que estimular o consumo quando a oferta não é elástica pode forçar uma alta de preços descabida com a inflação já arreganhando os dentes, além de aumentar as importações e deteriorar ainda mais o déficit em transações correntes. Terceira, que os aumentos salariais já contratados para o ano que vem e os que estão sendo acordados com sindicatos neste último trimestre forçarão uma alta de preços ainda maior. E quarta, que a inflação resultante pode aumentar a possibilidade de recessão induzida do exterior, e que o governo quer evitar. Em suma, o Banco Central não deveria ter reduzido a Selic e deveria deixar de apontar para um viés de redução continuada.

Em resumo, os dois lados do jogo são: o do BC (está tudo sob controle! e ponto) e o do mercado (tudo pode fugir do controle! e ponto). E o que está no pano verde não são apenas duas opiniões diferentes. O que está no pano verde é muito dinheiro. Na especulação, nos derivativos, nos contratos de compra e venda externos, nas apostas em índices, etc. E quem perder a aposta, podem crer, cobrará de nós, assalariados normais, o reembolso, de alguma maneira.

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