As armadilhas na saída da crise

Dois conjuntos de indicadores chamaram a atenção na semana que passou. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a queda de 0,8% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2009, comparativamente ao trimestre anterior, caracterizando oficialmente a recessão, dado que foi o segundo resultado trimestral negativo. Também foram divulgados novos dados da pesquisa CNI/Ibope, dando conta de que o nível de aprovação do governo cresceu em relação à pesquisa anterior.Trata-se de evidente paradoxo, pois estamos há um semestre em crise e, embora a queda global do nível de atividades doméstico tenha sido pequena em comparação com a proporção da crise, vale destacar que há resultados preocupantes, como a queda de 12,6% observada nos investimentos, além do impacto ocorrido no setor industrial, especialmente nos bens de capital.Não obstante, apesar da confirmação da "recessão técnica", chama a atenção o nível de aprovação do governo federal, que, comparativamente à ultima pesquisa, cresceu de 64% para 68%. Mais impressionante ainda foi a elevação da aprovação pessoal do presidente da República, que subiu de 78% para incríveis 80%.Esses resultados revelam que, primeiro, apesar de ruins, os dados do PIB traduzem uma fotografia do passado, já que a economia apresenta um quadro atual melhor, tendo em vista o comportamento dos principais indicadores antecedentes. O segundo aspecto é que, uma vez superado o episódio da "marolinha", o governo aparentemente vem se comunicando bem no que se refere à natureza da crise e ao seu próprio desempenho em combatê-la. Essa hipótese é fortalecida pelo fato de a mesma pesquisa citada constatar que 69% dos entrevistados avaliam como positiva a atuação do governo ante a crise.É interessante notar que tudo indica que o PIB do segundo trimestre - embora ainda longe do desempenho comparado ao período homólogo do ano anterior - deve apresentar desempenho positivo em relação ao primeiro trimestre, configurando um quadro gradual de recuperação que deverá se consolidar ao longo dos próximos trimestres. No entanto, vale destacar, isso não virá de forma automática. Além dos desdobramentos do cenário internacional, tudo também vai depender do acerto nas decisões e da implementação das políticas econômicas domésticas.Vai ser fundamental garantir a continuidade da redução não apenas dos juros básicos, mas também dos juros ao tomador final, além de melhorar as condições de oferta de crédito e financiamento a empresas e consumidores. A redução de mais um ponto porcentual na taxa Selic, na semana passada, veio consolidar a trajetória declinante dos juros. Mas é preciso destacar que, tendo em vista que grande parte dos países promoveu fortes cortes nas suas taxas e que a expectativa de inflação doméstica também caiu, a taxa de juros real esperada permanece entre as mais elevadas do mundo. Ou seja, há ainda mais espaço para continuar a reduzir os juros.Da mesma forma, é fundamental adotar medidas para evitar a apreciação exagerada do real, porque ela dificulta a recuperação da indústria, o setor mais afetado pela crise. Um câmbio competitivo é crucial não apenas para a competitividade das exportações de manufaturados, mas também para evitar a substituição da produção local por importações, ambos aspectos que afetam diretamente o nível de atividades interno.Outra política anticíclica importante se refere aos investimentos públicos, que devem ser ampliados. Eles são importantes pelo impacto gerado na demanda efetiva e pela sinalização ao setor privado.O pior que pode acontecer é que, diante do quadro de gradual recuperação da economia e do elevado nível de aprovação do governo federal, se crie um clima de acomodação e passividade. Ao contrário de outras crises passadas, nas quais a gravidade da situação impôs mudanças, o grande risco presente na crise atual é que a acomodação nos leve a repetir erros anteriores de deixar-se enveredar pelas armadilhas representadas pela dobradinha câmbio valorizado e juros aparentes mais baixos, mas ainda elevados em termos reais. Ou seja, paradoxalmente, em meio à crise mais aguda da economia mundial dos últimos 70 anos, nossos maiores inimigos são os nossos próprios velhos dilemas entre os resultados de curto e de longo prazos. *Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor da PUC-SP, doutor em Economia pela Unicamp, é economista chefe da Siemens e coautor, entre outros livros, de Economia Brasileira (Saraiva)E-mail: aclacerda@pucsp.br

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