Nicole Bengiveno/The New York Times
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coluna

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As barreiras às mulheres no trabalho

Para muitos, progresso do sexo feminino não passa de uma ficção conveniente para os homens

The Economist, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 05h00

As mulheres deram grandes passos no mercado de trabalho nos últimos 50 anos. Mas muitas ainda sentem que o seu avanço está encontrando obstruções e, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, dois livros de escritoras feministas lançados recentemente tratam destas questões.

Em The Fix (“o acerto”, em inglês) Michelle King, diretora de inclusão da Netflix, a gigante do streaming, observa que as mulheres ouvem constantemente que elas precisam mudar – serem mais afirmativas, trabalhar muitas horas mais e assim por diante. Em The Home Stretch, a jornalista Sally Howard sugere que um motivo muito importante pelo qual as mulheres são preteridas é que, mesmo quando trabalham em horário integral, espera-se que façam todo o trabalho de casa. Para citar o longo, mas apropriado subtítulo, ela afirma “porquê está na hora de deixar bem claro quem lava os pratos”.

Diretores do sexo masculino talvez achem estes livros uma leitura desconfortável, temperadas com aquela conversa sobre patriarcado e privilégios de gênero. Às vezes, as autoras vão longe demais. Sally Howard relaciona o patriarcado ao capitalismo com tanta frequência que nos perguntamos se ela já viu uma foto do comitê composto inteiramente por homens ou pensou no mal feito às mulheres e às menininhas pela política do filho único do Partido Comunista Chinês.

Mas os homens não precisam abandonar o sistema capitalista para apreciar a difícil situação das mulheres que trabalham. Elas só precisam de empatia. Será que as mulheres no local de trabalho são julgadas pelos mesmos padrões de seus colegas homens? Serão descritas com adjetivos (escandalosa ou emocional, por exemplo) que não se aplicariam aos homens com as mesmas características?

Apesar do seu progresso recente, as mulheres ainda encaram um teto de vidro. Duas histórias do livro de Michelle King ilustram este ponto. Sarah era uma executiva em uma multinacional que trabalhou até mais tarde, fez treinamento na área de gestão e agia de acordo com o feedback. Depois de muitos anos de rejeição, parecia que estaria prestes a ser promovida ao escalão superior, inteiramente composto de homens. Mas na reunião decisiva, um executivo homem disse: “Não sei, ela não se enquadra. Ela tem aqueles óculos e usa uma presilha no cabelo”. Não era exatamente o tipo da “gestão científica”.

Na outra história, no seu primeiro dia no emprego, Michelle King entrou em uma cozinha cheia de homens. O seu chefe disse: “Olá, Michelle, há alguns pratos na pia e como você é uma mulher, pode lavá-los”. Os seus colegas riram. Quando ela protestou, falaram que ela precisava aprender a aceitar uma brincadeira.

O bullying disfarçado de humor não deixa de ser bullying. E espera-se que as mulheres se acostumem a isto. Não só, como elas precisam tolerar diferentes padrões na maneira de se apresentar.

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Boris Johnson, frequentemente despenteia o cabelo antes de se mostrar em público para manter a sua imagem de “adorável bufão”. Os trajes de Dominic Cummings, o seu assessor, são sempre desalinhados, o que se coaduna com o seu personagem de “gênio excêntrico”. É difícil imaginar uma mulher chegando a uma posição de poder político adotando um estilo semelhante.

Às vezes, a justificativa pelo fato de as mulheres não avançarem em certas profissões é que mulheres e homens escolhem naturalmente seguir caminhos diferentes em suas carreiras. No entanto isto pode ser simplesmente o resultado de barreiras formais e informais contra o sucesso das mulheres. No final do século 19, quando apenas 4% ou 5% dos médicos americanos eram mulheres, alguns homens indubitavelmente atribuíram o fato à falta de aptidão. Muitas escolas de medicina, talvez compartilhando deste preconceito, não aceitavam candidatas.

Harvard começou a aceitar mulheres somente depois da Segunda Guerra Mundial. Na Grã-Bretanha, as mulheres não podiam trabalhar como advogadas até serem admitidas na Law Society, em 1922.

Em ambas as profissões, os campos de atuação finalmente foram equiparados. Resultado? Em 2017, pela primeira vez, nas escolas de medicina nos EUA foram admitidas mais mulheres do que homens. Em 2018, a metade dos advogados britânicos eram mulheres.

Segundo outro argumento bastante difundido, as pessoas casadas se especializam, o homem pega um emprego mais bem remunerado e a mulher fica com a maior parte do trabalho de casa. O que é igualmente duvidoso. Um estudo mostra, por exemplo, que os maridos com salário menor do que as esposas fazem menos trabalho doméstico em relação aos maridos que ganham mais do que suas parceiras.

Muitos dos argumentos segundo os quais a falta de progresso das mulheres é uma decorrência da aptidão ou da opção é uma ficção conveniente para os homens, que se saem bem com este acerto. As mulheres, que acabam fazendo a maior parte do trabalho da casa e também trabalham muitas horas, se saem sempre mal. Não são elas que precisam mudar – mas as atitudes dos homens. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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