As consequências econômicas de Trump

O que se deseja para a frente é que a plataforma comercial do presidente americano não se materialize

Roberto Fendt*, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2017 | 05h00

Em 22, 23 e 24 de julho de 1925, John Maynard Keynes publicou três artigos no jornal inglês Evening Standard. Neles criticava a decisão do primeiro-ministro Winston Churchill de retornar a libra ao padrão-ouro a uma paridade valorizada. Para Keynes, a perda de competitividade das exportações inglesas não poderia ser atribuída a medidas dos importadores, mas à própria política cambial inglesa. Muitas vezes, os problemas que atribuímos a terceiros são de nossa própria preparação.

Qual a origem dos problemas que assolam a ordem internacional e como resolvê-los? Para alguns, o problema está na falta de cooperação internacional e na ausência de coordenação de políticas econômicas externas das economias avançadas. A solução seria promovê-las. Para outros, está nos malefícios do protecionismo. Para combatê-los, precisamos começar a pôr nossa própria casa em ordem – por meio de melhor regulação financeira, estabilidade macroeconômica e reformas estruturais que promovam o crescimento. Transformar a globalização em bode expiatório populista não resolverá qualquer problema no G-20 ou em qualquer outro lugar.

A primeira solução vem de longe, dos primeiros encontros dessa natureza, na década de 1970. O problema então era reduzir os riscos de desequilíbrios macroeconômicos por meio da coordenação de políticas econômicas e “mecanismos partilhados de globalização”. A partir da criação do

G-20 em 1999, os Estados Unidos e a China vinham cooperando para promover ou restabelecer a confiança na ordem internacional. O crescimento econômico nos dois países deu sustentáculo a essa liderança partilhada.

O problema agora é que não há reconhecimento de que haja vontade ou capacidade de que o presidente Trump desempenhe esse papel. Mas coordenar políticas macroeconômicas requer pelo menos dois. Sozinho, o presidente Xi Jinping não tem com quem coordenar. Isso explicaria por que a China e a Alemanha vêm se arvorando as defensoras da ordem multilateral global.

China e Alemanha têm muito em comum na defesa do multilateralismo aberto e do acordo do clima de Paris, ambos combatidos pelo presidente Trump. Os dois países têm também seus problemas internos, mas certamente o protecionismo está no centro de suas preocupações – e das nossas.

A ameaça do protecionismo está crescendo. O governo Trump acusa tanto a China como a Alemanha de manipulação da taxa de câmbio – sem nenhuma evidência empírica de que isso esteja de fato ocorrendo. Trata-se, como em outros casos, de um mito populista.

Os problemas e as incertezas não param por aí. Para citar apenas dois, paira no ar um possível confronto entre os EUA e a Coreia do Norte. E as consequências da fragmentação dos partidos políticos em vários países do G-20, ampliando as incertezas políticas quanto à solução dos desequilíbrios da ordem internacional.

De positivo da reunião, a chanceler Merkel evitou que o G-20 se transformasse em um G-zero, com cada um por si, para usar a expressão do politólogo Ian Bremmer. E o fato de o comunicado final da reunião ter enfatizado de maneira firme a importância do princípio de não discriminação e a ênfase em uma ordem internacional baseada nas regras acordadas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Esses compromissos são encorajadores e não eram amplamente esperados, dado que o presidente dos EUA havia posto em dúvida diversas posições comuns dos demais membros manifestadas em encontros anteriores do G-20.

O que se deseja para a frente é que a plataforma comercial do presidente Trump não se materialize. Porque, se o for, serão prejudicados todos os membros do G-20, os não membros e os próprios americanos. Porque o comércio baseado em vantagens comparativas e sujeito à disciplina de normas impessoais, em lugar do arbítrio de quem quer que seja, aumenta a eficiência em cada país e faz crescer o bolo do PIB. Não se comercia para beneficiar outros países e seus habitantes, mas para aumentar as opções de escolha e o bem-estar de nossos próprios cidadãos.

* É ECONOMISTA

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