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As criptomoedas na mira dos bancos centrais
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Colunista
Celso Ming
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As criptomoedas na mira dos bancos centrais

Há uma revolução no sistema monetário global facilitada pela generalização dos algoritmos e dos aplicativos que impulsiona o crescimento dos criptoativos e coloca sob ameaça a política monetária dos bancos centrais

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 20h06

Desde quando apareceu a primeira delas (o bitcoin, em 2008), as criptomoedas vêm sofrendo fortes ataques por parte de autoridades monetárias e policiais ao redor do mundo pelos argumentos errados. Um deles é o de que não são “legítimas”, porque não são emitidas por bancos centrais ou por governos soberanos. Mas esta não é exigência intrínseca de uma moeda. Ao longo da História, são inúmeras as moedas que tiveram grande aceitação sem que ostentassem a efígie de César ou do imperador do momento.

O primeiro dólar, por exemplo, nasceu por decisão do conde Hieronymus Schlick lá por 1540, cuja propriedade, na área de Joachimstal (“Vale do Joaquim”), na Boêmia, encontrou uma mina de prata. Cunhou então o Joaquimsthalergroschen (grosso dos “Vales do Joaquim”), nome convenientemente encurtado para taler (vales) em alemão, tallero em italiano e dollar em inglês. Foi uma moeda de grande aceitação sem que ninguém reclamasse então da deficiência de soberania na sua emissão. 

Desde tempos imemoriais, ouro em pó desempenhou função de moeda sem que levasse o carimbo de uma autoridade de Estado. A forte aceitação das criptomoedas provém das regras confiáveis de sua criação, da sua ancoragem em algoritmos e na indevassável tecnologia blockchain. Também não se pode alegar que a emissão por um banco central torna uma moeda mais confiável do que essas novidades. A inflação e a rejeição de tantas moedas oficiais mostram que bancos centrais e governos não foram tão zelosos na guarda do valor da sua moeda.

 

Outro argumento frequentemente repetido pelas autoridades é o de que as criptomoedas estão sendo cada vez mais usadas por sonegadores, terroristas e narcotraficantes, que se valem do anonimato nas transações. Por isso, concluem essas autoridades, deveriam ser banidas. No entanto, o dólar e o euro são moedas mais usadas e mais falsificadas por esses fora da lei do que as criptomoedas, sem que ninguém até agora tivesse pregado sua retirada de circulação. Nenhuma moeda tem a função de apontar atividades ilícitas. No dia em que deixar de assegurar a privacidade e qualquer um puder saber quanto alguém guarda no cofre, essa moeda começará a ser rejeitada.

É inegável que a política monetária (política de juros) dos bancos centrais está sob ameaça. Se o uso das criptomoedas se tornar ainda mais generalizado, os bancos centrais não terão como calibrar o volume de moeda no mercado para combater a inflação.

Por trás dessa impossibilidade está o fato de que os bancos centrais desfrutam hoje (ou até recentemente) de monopólio sobre a criação e a administração da moeda nacional. É sobre essa circunstância que se assentam as bases da atual política monetária, que é a prerrogativa exercida pelos bancos centrais de aumentar ou diminuir o volume de moeda de maneira a combater (ou não) a inflação. No entanto, nada assegura de fato esse monopólio. A qualquer momento, uma moeda mais confiável pode eliminá-lo. Ainda não se sabe como os governos ou os bancos centrais poderiam quebrar a espinha dorsal das criptomoedas de modo a perenizar seu próprio monopólio.

O maior problema das criptomoedas é sua enorme volatilidade, o que as impossibilita de se tornar reserva estável de valor. E há, ainda, o fato de que consomem volumes enormes de energia elétrica tanto para a sua "mineração" (criação) quanto pelo processamento das transferências de titularidade.

 


Há uma revolução no sistema monetário global facilitada pela Tecnologia da Informação ou, mais especificamente, pela generalização dos algoritmos e dos aplicativos, que possibilitaram as criptomoedas. Não sabemos ainda o que está a caminho. Sabemos apenas que será um mundo bem diferente do que é hoje.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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