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As decisões corretas para 2015

Precisamos, para começar, de crescimento e empregos para sustentar a prosperidade e a coesão social na sequência da Grande Recessão de 2008

CHRISTINE, LAGARDE, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2015 | 02h02

Com o fim de 2014, os governantes de todo o mundo se veem diante de três decisões fundamentais: lutar pelo crescimento econômico ou aceitar a estagnação; trabalhar para melhorar a estabilidade ou correr o risco de sucumbir à fragilidade; e cooperar entre si ou enfrentar os desafios sozinhos. Não poderia haver mais em jogo: 2015 promete ser um ano de tudo ou nada para a comunidade global.

Para começar, precisamos de crescimento e empregos para sustentar a prosperidade e a coesão social na sequência da Grande Recessão que teve início em 2008. Seis anos após o começo da crise financeira, a recuperação continua fraca e desigual. A projeção de crescimento global deve ser de apenas 3,3% em 2014 e 3,8% em 2015. Algumas economias importantes ainda estão combatendo a deflação. Mais de 200 milhões de pessoas estão desempregadas. A economia global corre o risco de ficar presa num "novo patamar de mediocridade" - um período prolongado de crescimento lento e baixa criação de empregos.

Para se livrar da estagnação, precisamos de novo ímpeto na política.

Se as medidas do acordo entre as lideranças reunidas na cúpula do G-20 em novembro forem implementadas, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial pode aumentar em mais de 2% até 2018 - o equivalente ao acréscimo de US$ 2 trilhões em renda global. Além disso, até 2025, se a louvável (ambiciosa e possível) meta de reduzir em 25% a diferença salarial entre os gêneros for alcançada, 100 milhões de mulheres podem ter empregos que não tinham antes. As lideranças globais pediram ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que monitore a implementação dessas estratégias de crescimento. Nós o faremos, acompanhando cada país e cada reforma.

Demanda global. Além de reformas estruturais, para a construção desse novo ímpeto será necessário puxar todas as alavancas possíveis que possam sustentar a demanda global. A política monetária de acomodação continuará sendo essencial enquanto o crescimento permanecer anêmico - embora devamos nos manter atentos para possíveis transbordamentos. A política fiscal deve ter como foco a promoção do crescimento e a geração de empregos, ao mesmo tempo preservando a credibilidade no médio prazo. E as políticas para o mercado de trabalho devem continuar enfatizando o treinamento, as creches acessíveis e a flexibilidade no ambiente de trabalho.

Ao pensarmos na segunda decisão, entre estabilidade e fragilidade, devemos levar em consideração como tornar mais seguro nosso mundo cada vez mais interconectado. A integração financeira aumentou em dez vezes desde a Segunda Guerra Mundial. As economias nacionais são conectadas a tal grau que as mudanças no humor do mercado tendem a gerar efeitos que são sentidos em todo o mundo. Assim, é fundamental concluir a pauta da reforma do setor financeiro.

É verdade que houve progresso, especialmente na regulamentação dos bancos e no tratamento das instituições financeiras consideradas grandes demais para que as deixemos falir. Mas os países precisam agora implementar as reformas e aprimorar a qualidade da supervisão. Também precisamos de regras melhores para as instituições não bancárias, monitoramento mais rigoroso para os bancos irregulares, e melhores proteções e mais transparência no mercado de derivativos. O progresso na eliminação das lacunas de dados no setor financeiro também é urgentemente necessário, de modo que os reguladores possam avaliar adequadamente o risco para a estabilidade financeira.

Mais importante, a cultura do setor financeiro precisa mudar. O principal propósito da indústria financeira é oferecer serviços a outras partes da economia, algo que só pode ser feito se o setor gozar da confiança daqueles que dependem desses serviços - ou seja, todos nós. A restauração da confiança deve, portanto, começar com um grande esforço geral para promover e vigiar o comportamento ético em toda a indústria.

A terceira decisão, de enfrentar os desafios por conta própria ou juntar forças, é a mais importante. Nenhuma economia é uma ilha; de fato, a economia global está mais integrada do que nunca. Pense nisso: 50 anos atrás, os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento respondiam por cerca de um quarto do PIB mundial. Hoje, eles geram metade da renda global, fatia que continuará aumentando.

Mas os Estados soberanos não são mais os únicos atores em cena. Uma rede global de novos envolvidos emergiu, incluindo ONGs e ativistas cidadãos - cujo poder muitas vezes emana das mídias sociais. Essa nova realidade exige uma nova resposta. Teremos de atualizar, adaptar e aprofundar nossos métodos de trabalhar juntos.

Isso pode ser feito com a construção de instituições eficazes de cooperação já existentes. Instituições como o FMI devem se tornar ainda mais representativas à luz das mudanças na dinâmica da economia global.

'Novo multilateralismo'. As novas redes de influência devem ser aceitas e receber espaço na arquitetura da governança do século 21. É isso que chamei de "novo multilateralismo". Acredito que essa seja a única maneira de enfrentar os desafios que se apresentam à comunidade global.

O ano de 2014 foi difícil. A recuperação foi lenta, uma série de perigosos riscos geopolíticos vieram à tona, e o mundo se viu diante de uma grave epidemia de Ebola. Este ano pode ser igualmente difícil, mas pode também ser um ano bom - um ano verdadeiramente multilateral.

O novo ímpeto do comércio global pode ajudar a dar vida nova aos investimentos em todo o mundo, e tenho esperança em relação às novas Metas de Desenvolvimento Sustentável (que se seguirão às Metas de Desenvolvimento do Milênio em 2015), e às perspectivas de um acordo abrangente para combater a mudança climática no final do ano.

Diante desse panorama, a adoção das reformas do FMI por parte do Congresso americano funcionaria como um sinal há muito aguardado pelas economias emergentes em rápido crescimento, mostrando que o mundo conta com suas vozes, e seus recursos, para encontrar soluções globais para problemas globais.

Crescimento, comércio, desenvolvimento e mudança climática: 2015 será um encontro de importantes iniciativas multilaterais. Não podemos nos dar o luxo de permitir que fracassem. Vamos tomar as decisões corretas./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

CHRISTINE LAGARDE É DIRETORA-GERENTE DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI)

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