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As duas faces da América corporativa

Nos EUA, Trump é o abismo que separa os executivos das grandes empresas dos pequenos e médios empresários

The Economist

24 Julho 2016 | 05h00

Os executivos que comandam as multinacionais americanas são o retrato do autocontrole, com apertos de mão sinceros e declarações que não fogem ao script. Mas é só questioná-los sobre a eleição deste ano que as emoções afloram. Num coquetel em Manhattan, o presidente de um grande banco não se contém e diz que Donald Trump é um doido varrido. Batendo com o punho na mesa de seu escritório, o principal executivo de uma das maiores empresas de tecnologia dos EUA, um raro espécime de republicano no Vale do Silício, jura que votará em Hillary Clinton. O responsável por um titã do setor de transportes garante que um governo Trump acabaria com o livre-comércio – e com os excelentes negócios que sua companhia tem com o México.

O desprezo é mútuo. Em comício realizado no Maine, em 29 de junho, Trump criticou a Câmara de Comércio dos EUA, organização de lobby favorita das grandes empresas americanas. “É uma entidade totalmente controlada por grupos de interesse”, disse, arrancando aplausos entusiasmados dos presentes.

Para as empresas americanas mais internacionalizadas, Trump está redondamente enganado quando diz que o país já não é mais um vencedor. Para elas, os últimos dez anos foram espetaculares. As ações estão perto de seu nível mais alto em todos os tempos; de 2009 para cá, os lucros operacionais das companhias que compõem o S&P 500 cresceram 137%. Muitas das tendências que entornaram o caldo do americano médio fizeram a festa da América corporativa.

As grandes empresas eliminaram postos de trabalho para aumentar a produtividade, e agora realizam 40% de suas vendas no exterior. Também ampliaram seu domínio sobre o mercado interno com uma onda de fusões e muito lobby. Seus executivos reclamam dos impostos, mas são craques em se esquivar deles. Em 2015, as 50 maiores empresas dos EUA pagaram efetivamente uma alíquota de 24% sobre seus lucros globais, frente à alíquota oficial de 39%.

Num momento em que amplos segmentos sociais dizem que a economia patina sem sair do lugar, a América corporativa faz e acontece: por seu valor de mercado, as empresas do país ocupam todas as dez primeiras colocações nos rankings corporativos mundiais. Os executivos das multinacionais acham que o país está entrando num período especialmente promissor.

O grosso dos efeitos negativos atribuíveis à mão de obra barata chinesa já foi absorvido; com um pouco de sorte, os consumidores chineses começarão a comprar mais do resto do mundo. A liderança dos EUA no setor de tecnologia nunca foi tão grande. Novos acordos comerciais, como a Parceria Transpacífica, são extraordinariamente favoráveis aos interesses americanos em aspectos como o dos direitos de propriedade intelectual. “O modelo que garantiu nosso sucesso nos últimos 30 ou 40 anos está mais sólido que nunca”, afirmou Eric Schmidt, presidente executivo da Alphabet, holding controladora do Google, em palestra proferida no Clube Econômico de Nova York no mês passado.

O sentimento de hostilidade que as grandes empresas nutrem por Trump vai além da questão do livre-comércio. Seus executivos sabem que as características demográficas dos EUA estão mudando. Os hispânicos formam o grupo de consumidores que mais cresce no país: segundo o banco Morgan Stanley, sua participação no consumo total da sociedade americana deve aumentar dois pontos porcentuais até 2020; e a fatia dos indivíduos brancos deve diminuir em igual proporção. Essas companhias também veem um país muito mais progressista em termos sociais. Nada disso combina com a agenda xenofóbica de Trump, o que explica, talvez, por que Wells Fargo, JPMorgan Chase, Ford, Coca-Cola e Apple reduziram o valor de seu patrocínio à convenção republicana (que ocorreu na semana passada), quando não o eliminaram por completo.

Subúrbio. No entanto, 1,5 mil km ao sul de Manhattan, nos subúrbios da Flórida, o sentimento do empresariado não poderia ser mais diverso. O presidente de uma construtora diz que não aguenta mais. Ele faz negócios apenas dentro das fronteiras americanas, e seus lucros ainda não retornaram aos níveis de 2006. O governo Obama, em sua opinião, travou a economia. Benefícios sociais mais generosos tornaram os trabalhadores preguiçosos. As licenças e impostos locais proliferaram, elevando os custos. O aumento da regulamentação sobre os bancos restringiu o crédito. Votar em Hillary? Nem pensar, diz o empresário. Tem de ser Trump – se o republicano é um sujeito meio desequilibrado e vulgar, paciência: melhor isso que uma estagnação sem fim.

O dono da construtora não está sozinho. Levantamentos de opinião indicam que Trump também faz sucesso entre os pequenos empresários: em seu caixa de campanha aparecem contribuições de centenas de pequenas empresas completamente desconhecidas em Wall Street ou Washington.

A maneira mais cômoda de se entender o fenômeno é dizer que esses empresários são ingênuos e se deixam levar pelo palavrório do bilionário. Afinal, Trump construiu sua fortuna no coração do segmento mais globalizado da economia, e não se esfalfando ombro a ombro com o americano comum. Segundo estimativas de The Economist, cerca de 66% do valor de suas operações se concentram em Nova York, principalmente sob a forma de edifícios espalhados pelas ruas de Manhattan. Bancos globais, desses que, quando se veem em dificuldades, são grandes demais para que as autoridades deixem quebrar, são inquilinos em dois dos imóveis mais valiosos da imobiliária de Trump. Desde a década de 90, o magnata faz salamaleques a investidores estrangeiros, sejam eles de Hong Kong ou de qualquer outro canto do planeta.

Mas Trump fala a língua dos pequenos e médios empresários quando promete acabar com o Obamacare, o sistema de saúde que o setor privado diz ter gerado uma burocracia excessiva. Para as companhias de menor porte, com atuação restrita ao mercado interno, a promessa de que nenhuma empresa americana pagará mais de 15% de imposto não parece nenhum absurdo fiscal, e sim a possibilidade de que elas tenham o mesmo tratamento de que já usufruem as multinacionais. E quando Trump se queixa de que nos EUA os grupos de interesse dominam a economia e corrompem a política, ele tem razão. O valor que as empresas do país destinam a atividades lobistas chegou a US$ 3 bilhões. Com as grandes empresas em ascensão, a criação de novas empresas encontra-se em seu patamar mais baixo desde os anos 70.

Uma agenda econômica sensata agradaria – e incomodaria – ambos os lados desse abismo. Incluiria políticas de incentivo ao livre-comércio, mas também de combate a oligopólios, a lobbies e a burocracia, além de uma reforma do sistema tributário corporativo. Em outras palavras, daria ouvidos tanto aos sofisticados executivos quanto às lideranças empresariais que apoiam Trump.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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